Em Busca da Palavra Certa

Querelas dos Brasileiros

Sexta-feira, Setembro 11, 2009



“O Brazil não conhece o Brasil / O Brazil nunca foi ao Brasil”. Não foi a letra de Aldir Blanc a única a chamar a atenção e celebrar a pluralidade que para o assombro dos estrangeiros faz com que hábitos e pessoas tão heterogêneas convivam em um só lugar. Louvados por sua diversidade, destacados por sua tolerância e preferidos por seu espírito alegre e festivo, os brasileiros se acostumaram com os lisonjeios ao seu estilo de vida, mesmo que, para tanto, tenham de se enquadrar em um estereótipo que omita as peculiaridades distribuídas entre o Oiapoque e o Chuí. Afinal, quem diz que pra ser brasileiro é preciso samba no pé não causa espanto se arriscar eleger Buenos Aires nossa capital.

Mas quem de fato conhece o Brasil sabe que o jeitinho de viver do tupiniquim nunca esteve às maravilhas e que mesmo nossa tolerância e alegria são pra lá de limitadas. Os mais conformados acreditam no determinismo do clima e da forma de colonização como justificativa para a indolência e o subdesenvolvimento. Mas ainda não acharam explicação para a omissividade, a hipocrisia e a corrupção, esses sim, aspectos isentos de regionalismos que encontram abrigo na personalidade de brasileiros de qualquer cultura e classe econômica.

Ao mesmo tempo em que aprenderam a conviver com a dualidade moral, os brasileiros também foram educados a aceitar somente descrições positivas de sua dita “identidade”, acortinando seus vícios e inflando sua auto-estima com o gás de uma nacionalidade fantasiosa. Dessa forma, nos esquecemos do respeito cordial, da ética e do pudor de tão maravilhados com nossa jinga e beleza. Sujamos as ruas enquanto torcemos pela gloriosa seleção verde-e-amarela. Dispensamo-nos de bobagens como voto e participação na vida pública, afinal, somos alegres e festeiros demais para pensar em obrigações civis.

O alto do narcisismo que se arvora a nos eleger o melhor povo do mundo é de onde caímos por tropeçar, negligentes, em nossa presunção. E seguem os versos na letra de Blanc: “O Brazil não merece o Brasil / O Brazil tá matando o Brasil”

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Texto escrito para o colégio, em 11 de Agosto de 2009,
sobre o tema "Brasil Brasileiro: Costumes da nacionalidade".


Igor Falconieri


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Chão de Conflitos

Quinta-feira, Setembro 10, 2009


Foto: Divulgação

“[...] Os pastores, que habitam este monte,
Respeitam o poder do meu cajado:
Com tal destreza toco a sanfoninha,
Que inveja até me tem o próprio Alceste:
Ao som dela concerto a voz celeste [...]”
Tomás Antônio Gonzaga,
Marília de Dirceu, Lira I

Foi-se o tempo em que o campo respirava a serenidade e o bucolismo dos versos árcades do Brasil setecentista. As disputas que movem fazendeiros, trabalhadores rurais sem-terra, ambientalistas, e, em alguns casos, indígenas, transformaram o ambiente agrário brasileiro em uma zona de fogo onde interesses convergem em torno de um espaço em que nós, cidadãos urbanos, pouco nos interessamos, mas sobre o qual o país cada vez mais alça sua economia: a terra.

Os crescentes lucros com a exportação de commodities que alavancaram parte do progresso econômico brasileiro na última década não deixam ver um quadro social que remonta, no campo, o atraso dos tempos da colonização. O modelo de distribuição agrária no Brasil promete mudanças jamais efetivadas há mais de 40 anos. Os resultados são o escandaloso adensamento fundiário que concentra mais da metade das terras produtivas em apenas 2% das propriedades rurais do país e as tumultuosas reivindicações das mais de cem mil famílias que resolveram tomar à força seu pedaço de chão, o controverso Movimento dos Sem-Terra.

Se por um lado o projeto de redistribuição igualitária e abrangente de assentamentos, a reforma agrária, adotada em países hoje desenvolvidos como o Japão foi a chave do avanço social e econômico dessas nações no passado, no Brasil, a realidade é inversa: aqui, o sucesso do agronegócio, atividade primária na pauta de exportações brasileiras, dá graças à modernização tecnológica e ao alto investimento em latifúndios monocultores. Assim, perde mais prestígio no interesse político a agricultura familiar e se prolonga cada vez mais a problemática rural.

Além da tensão gerada pela desigualdade, a falta de oportunidades no campo favorece também o êxodo de trabalhadores para as cidades, que crescem desordenadamente e sofrem com o desemprego. Diante do impasse, cabe lembrar que a medida do progresso é a contemplação da qualidade de vida geral, e não somente o inchaço da economia. O país não precisa se desfazer da riqueza somente para encontrar de novo a tranquilidade dos versos de Dirceu, mas pode trabalhar para que a riqueza seja bem distribuída e a tranquilidade do desfrute de todos.

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Texto escrito para o colégio, em 10 de Setembro de 2009,
sobre o tema "Reforma Agrária".


Igor Falconieri


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Pecadores pelo Excesso

Sexta-feira, Agosto 21, 2009


Foto: Divulgação

Os resultados trágicos dos excessos das celebridades colocam em questão o valor da fama ante os transtornos e privações que ela pode causar. A morte repentina de Michael Jackson traz de volta a repetida imagem na qual já figuraram outros ícones, centros da apreciação humana que as artes e a mídia foram capazes de erguer ignorando os limites naturais daquilo que sustenta o ídolo: um ser humano.

Overdoses de medicamentos, suicídios e doenças psíquicas mancharam a história brilhante daqueles que por muito tempo esbanjaram talento, inteligência e vida. Esbanjar é a palavra. Quem precisa sempre encantar o público acaba sucumbindo a uma vida de excessos, onde prazeres corriqueiros que satisfariam qualquer ser humano são desprezados em favor dos holofotes.

A partir daí, todo o deleite do reconhecimento e da atenção em torno do virtuoso é questionado perante as limitações de uma vida dedicada ao estrelato, desencadeando crises pessoais e bizarrices como as que findaram o prestígio de Jackson. O astro, reconhecido por um imenso talento desde a infância, se apoiava em um ser humano frágil que temeu estar sozinho e não ser o que esperavam dele. Mais um corpo que padece sob o peso de seu ícone.

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Texto escrito para o colégio, em 20 de Agosto de 2009,
sobre o tema "A Fama que Mata".


Igor Falconieri


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A Importância da Leitura para a formação da Cidadania

Quinta-feira, Agosto 06, 2009


Foto: ailatan

Ressaltar que a leitura é importante nos mais variados níveis de formação sócio-individual é uma prática tão repetida, que sua sentença já se formou como um dogma: todos a tomam como verdade, mas há pouco esforço para argumentá-la e torná-la convincente. O que deveria parecer óbvio, embasado nos benefícios de um raciocínio dinâmico, uma memória em ação e uma ampla capacidade criativa, não parece comover o brasileiro médio, até mesmo aqueles com maior escolaridade.

O Brasil não é o país das bibliotecas, pois, impedidas por um histórico de precária alfabetização, as publicações escritas nunca alcançaram seu pretenso – e mais que devido – papel no gênio coletivo. Se tomamos a história européia e norte-americana, sempre esbarramos em transformações mentais e políticas impulsionadas por... Livros! O Príncipe, O Elogio da Loucura, A Riqueza das Nações, O Contrato Social, A Enciclopédia, A Origem das Espécies, O Manifesto Comunista. Obras dessa importância nunca tiveram a chance de se popularizar entre os tupiniquins; tanto que, aqui, popular se tornou sinônimo de inculto. Isso simboliza, além do prejuízo histórico – ser um dos últimos países a tornar-se república e a última nação americana a abolir a escravidão já exemplifica o suficiente –, a perpetuação da ideia de que a leitura não tem função social, de que não é a intelectualidade a propulsora de todo progresso humano.

A linguagem é a aquisição evolutiva que explica a maior parte do sucesso da espécie, e a escrita, sua forma mais eficaz, pois não só amplia largamente a abrangência da comunicação como também a registra, transcendendo conhecimento por gerações – nenhuma das obras citadas acima se tornou obsoleta ou deixou de ser admirada, ao contrário, as instituições de ensino em todo o mundo as utilizam como sustentáculo para a formação da cidadania em seus alunos.

Quando nos privamos de ler, abrimos mão de nossa consciência social, nosso censo crítico, nosso acesso ao conhecimento alheio – pobre, pois, do nosso –, nossa melhor capacidade de interpretação e juízo dos fatos, e, enfim, nossa imaginação. Morremos socialmente, tornamo-nos inúteis párias e pomo-nos a repetir sentenças dogmáticas, até mesmo sobre a leitura. Isso não é ser cidadão.

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Texto escrito para o colégio, em 7 de Agosto de 2009. O tema A Importância da Leitura para a formação da Cidadania é da prova de redação da Universidade Federal de Ouro Preto, aplicada em Julho desse ano.


Igor Falconieri


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Quem censura?, Parte 2

Segunda-feira, Julho 06, 2009


Foto: Divulgação

No ano passado, aproveitei a tona de um projeto do ministro da justiça Tarso Genro sobre interceptação de comunicação no meio público para me arvorar a uma discussão sobre as direções da imprensa e da tão temida censura no Brasil. Hoje, apenas dez meses depois, o tom do debate já aparece com nova pauta.

Neste mês, como anunciado em abril, chega à rede o Blog do Planalto, espaço online no qual o presidente Lula pretende seguir os exemplos de Obama e estreitar seu contato com o eleitor cibernético. Seu fã norte-americano, o presidente do BlackBerry inovou ao usar a grande rede como um de seus meios de campanha preferenciais. Até então, essa atitude em desfavor da mídia tradicional vinha tomando espaço apenas lentamente em função da resistência dos setores dominantes de comunicação e propaganda ameaçados pelo novo veículo. A corrida eleitoral do democrata acabou por expor a anunciantes e assessorias de imprensa o quanto o Twitter, o Facebook e o MySpace têm em potencial para uma publicidade limpa, barata e eficiente no ímpeto de seu alcance global. Ponto para Obama.

O analista Roger Cohen, no artigo A Conexão Obama, publicada em maio do ano passado no The New York Times, citou: "É a rede, estúpido!", um análogo da criação do publicitário James Carville, "É a economia, estúpido!", expressão famigerada durante a campanha de Clinton contra Bush pai. Cohen ressalta a utilidade que fez Obama das redes sociais para desenvolver o engajamento dos jovens, o que para ele é o aspecto fundamental de sua vitória nas urnas. Segundo o analista, o mundo pós 11 de Setembro será determinado pela sociabilidade e pela conectividade, traços inevitáveis do atual estágio da globalização.

Mais do que isso, a predileção pela internet ante a imprensa tradicional é um fator que cria novos aspectos para a discussão sobre censura. A era da pluralidade acaba de nos dar as boas-vindas: Jorge Cordeiro, ex-assessor de imprensa e atual coordenador da empreitada tecnológica de Lula, elogiou a forma desobrigada e independente na qual os blogues disseminam informação e opinião antepondo-se à tendenciosidade da grande mídia. Ainda assim, Cordeiro, como qualquer um no poder público, dispõe-se a salientar o favor que presta a internet enquanto essa puder desbancar as manchetes de corrupção ou de qualquer outro indecoro político estampadas nos jornais - para tanto, Lula terá um blog. Ponto para o Planalto.

O mesmo estado que se viu ameaçado com a redemocratização dos meios de comunicação, agora precisa entrar às pressas no jogo para não perder a segunda batalha. Cabe alertá-lo que a grande rede propõe uma disputa mano a mano e exige um igual arregaçar de mangas de seus competidores.

Recentemente, um amigo me atentou para um até então inopinado fato sobre a morte de Michael Jackson: O de que o astro era, além de Madonna, o último dos ídolos pop. Do século XXI só se podem ressaltar tribos, grupos sociais grandes ou pequenos que compartilham preferências culturais e opiniões, não mais tendências de consenso e agrado universais.

Ele tem razão: Michael e Madonna fazem parte de um tempo obsoleto em que a mídia era restrita a um controle unilateral, um veículo soberano que, na sombra da bandeira da liberdade de informação, não hesitou em moldar e disseminar correntes arbitrárias de opinião a longo alcance, elegendo à sua maneira os merecedores do prestígio e os da escória. A tão evocada Web 2.0 e a conveniência que essa deu ao público de selecionar e até criar seu próprio conteúdo, favoreceram a descentralização não só dos veículos ocupados em divulgar, mas também de seus divulgadores, um papel que até mesmo eu, nesse exato momento, exerço. É certo que não haverá mais Michael Jacksons, pois nem há mais MTV: Há YouTube, onde consagrados e desconhecidos competem de igual para igual pelos cliques do espectador. Ponto até para Andy Warhol, hein?

A internet, mesmo não aparentando ter a pretensão de fazê-lo, acaba por imprimir a mais recente e larga pegada no caminho da liberdade de expressão, passo calcado na multiplicidade, nos mais ambíguos e discordantes manifestos, todos à tona, para o bem e o prezo da discussão. E dá-lhe elogios. Ponto para a prédica de Nelson Rodrigues, que já ressaltava seu desdém com a unanimidade, por ele eternizada a burra. Toda a humanidade – incluem-se aqui Obama, Cordeiro, os anunciantes, a grande mídia, meu amigo do Michael Jackson, eu... - terá de acolher as boas vindas da entusiástica nova ordem da comunicação: As opiniões existirão sempre distintas e em sua merecida evidência. Ponto para a sociedade.


Igor Falconieri


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Wilco (The Album), 2009

Quarta-feira, Julho 01, 2009





Há 15 anos nos palcos, o conjunto do endeusado Jeff Tweedy alcançou sua popularidade graças à mescla das raízes country e folk de seus integrantes com o tão aclamado rock alternativo do final dos anos 90, todos gêneros em evidência no cenário pop norte-americano àquele período.

Pouco mais tarde, o Wilco terminaria por firmar seu prestígio entre o público e a crítica ao incorporar ao seu já cultuado estilo musical algo que chamamos de dad’s rock, o som adulto típico dos anos 70 consagrado por Dylan, Springsteen e Young. A banda realizava o mais incomum: harmonizar melodias sóbrias e de fácil agrado, típicas do pop, e produção e experimentalismo sofisticados, proeza que melhor se traduz em seu magnum opus, o álbum Yankee Hotel Foxtrot. Preciso dizer que até minha mãe, alguém cujo interesse na música limita-se a nada mais que um franco e corriqueiro lazer, tem dois CDs do Wilco. Seu preferido é Sky Blue Sky, até então o mais leve e acessível lançamento da banda.

O sétimo álbum de estúdio do grupo talvez a agrade ainda mais. Wilco (The Album) se arrisca pouco: acompanha naturalmente a temporada de sol, a atmosfera tranquila de uma manhã de domingo inauguradas pelo disco anterior. Quando um artista aparenta optar por vias menos ambiciosas em seus trabalhos, é sinal de um de dois motivos: preguiça ou autoconfiança. Após prendermos o ar por algum tempo, sentimos o alívio de perceber que o novo disco do Wilco pertence ao segundo caso. Uma década e meia já deve ser o suficiente para que os músicos de Chicago se conheçam e já tenham estabelecido seu viés artístico.

Ele está na balada inocente de You And I, dueto com a cantora canadense Feist, nas reverberações em Bull Black Nova, na clara influência de George Harrison em You Never Know e dos Beach Boys em Sonny Feeling, e na calmaria simplista de Solitaire.

Para celebrar o feito – e o camelo espera pela festa -, um álbum e uma canção auto-intitulados. Talvez um tanto narcisista, ainda assim a apresentação que a banda faz de si própria sugere essa nova autoconsciência, algo como se Jeff Tweedy viesse e dissesse: Após muitas tentativas, chegamos ao que é o Wilco. É isso.

Igor Falconieri


Wilco (The Album)
Nonesuch, 2009

Faixas:
1. Wilco (The Song)
2. Deeper Down
3. One Wing
4. Bull Black Nova
5. You And I (com Feist)
6. You Never Know
7. Country Disappeared
8. Solitaire
9. I'll Fight
10. Sonny Feeling
11. Everlasting Everything

     
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Farinha do Mesmo Saco, Parte 1

Terça-feira, Junho 30, 2009


Foto: Time

Uma dos termos mais frequentes hoje na mídia e nas especulações políticas é o fundamentalismo. Sua conotação ocorre quase sempre ligada ao radicalismo islâmico, sobretudo usado como satisfatória explicação para as ações terroristas. Essa tendência estereotípica de restringir austeridade religiosa ao oriente é uma perigosa falácia que não nos permite atentar para verdadeiros prejuízos sociais do fundamentalismo que estão mais próximos de nós do que acreditamos.

Os movimentos fundamentalistas, numa diversidade de manifestações, têm abrangência muito maior que o império de Maomé. Em paradoxo, sua origem está ligada aos Estados Unidos, país que mais se aflige com a intervenção religiosa nas decisões políticas de outras nações. O conceito se aplica em temas que vão desde a diferenciação étnica à economia e denota movimentos cujos adeptos procuram manter rigorosamente princípios postulados em seu grupo.

Claro, isso sempre existiu. Porém, ao longo da história, princípios que regulassem a conduta humana em qualquer campo mantiveram certa conciliação com o tempo em que foram estabelecidos. E quando se tornavam obsoletos, se esvaeciam.

Mas na passagem para o século XX, dogmas ainda vigentes – como os irrefutáveis preceitos da tríade monoteísta: judaísmo, cristianismo e islamismo – encontraram impasse no avanço da sociedade industrial e sua acelerada substituição de costumes. A nova ordem político-econômica, calcada no liberalismo, nos ideais de igualdade civil e no impetuoso incentivo ao consumo, acabou por alterar o modo de vida e parte das relações sociais, provocando arguição das opiniões mais conservadoras. Os jovens queriam se divertir; as mulheres, sua emancipação. Novas teorias religiosas e científicas se espalhavam com mais facilidade em países com educação e governos laicos. A civilização cultuava o hedonismo e a liberdade. Aos olhos de um rígido seguidor dos fundamentos morais, pecado e pecado.

A tumultuada publicação de A Origem das Espécies, de Charles Darwin, em 1859, ao passo em que abriu caminho para valorosos avanços posteriores, também despertou uma forte união dos representantes religiosos em torno da oposição ao evolucio- nismo e a várias outras teses científicas, algumas até já admitidas anteriormente. Com estados preferencialmente alheios a questões que infringissem as garantias de liberdade civil, restava aos teólogos o encargo de “banir do mundo o mal da modernidade e tentar salvar os verdadeiros valores divinos”.

Movimentos internos dissidentes ou de reestruturação sistemática nas igrejas norte-americanas e anglicana como o Metodismo, que enfatiza o estudo e prática ortodoxa dos princípios bíblicos, passaram a reunir cada vez mais adeptos, insatisfeitos com a conduta dos “novos tempos”.

Uma edição de 90 ensaios teológicos escritos por um grupo de 64 conservadores britânicos e norte-americanos foi publicada ao longo de 12 volumes entre 1910 e 1915: Os Fundamentos: Um Testemunho à Verdade. A obra, de onde se origina o nome da nova prática comportamental, lançava sérias críticas à ciência moderna, ao comunismo, aos mórmons e ao darwinismo, firmando a fé cristã como intrinsecamente ligada aos fundamentos de seu livro sagrado. O ministro batista William Bell Riley reuniu em Minneapolis, no Minnesota, Estados Unidos, um largo número de pastores batistas, presbiterianos, episcopais e adventistas em torno da discussão sobre os rumos do protestantismo. A Associação Mundial dos Fundamen- tos Cristãos (WCFA), fundada em 1919, alavancou os movimentos fundamentalistas no sul do país, até mesmo no campo político, ostentando a bandeira apocalíptica que anunciava com cada vez mais proximidade o segundo advento de Cristo.

Mas suas práticas eram mais laicas do que suas intenções: Os fundamentalistas da WFCA, entre outros adeptos, buscavam amparo legal que pudessem conter com a força do estado o comportamento da modernidade. A famosa Lei Seca entre 1920 e 1933 foi uma conquista dos apelos de ministros e conservadores, que conseguiram convencer o governo de que a raiz da violência e da pobreza dos norte-americanos estivesse no álcool. Um a zero para as igrejas.

Durante a Guerra Fria, os pastores renovaram seu papel de purificadores sociais ao se engajarem na militância anticomunista, que arvorava a civilização norte-americana ao glorioso posto de adverso do “Império do Mal”, associação enganosa que chegou ao Brasil. Lembro-me, na infância, de uma partição na estante da casa de minha avó abarrotada de livros evangélicos com o tema. Um deles mostrava na capa a foice e o martelo vermelhos cravados em uma bíblia, atentando para o “grande mal do socialismo ateu”. O presidente republicano Ronald Reagan, na década de 80, percebendo o potencial dos religiosos como apoio contra os soviéticos e adversários democratas, favoreceu a ascensão da auto-proclamada Maioria Moral e de seu fundador, o televangelista Jerry Falwell (na foto do cabeçalho, o presidente e o pastor em 1983).

A Maioria Moral teve início no final dos anos 70, movimento liderado por Falwell que previa a atuação conjunta entre igreja e governo na política a fim de alcançarem a tão pretendida moralização do povo norte-americano. Falwell embasava-se em um discurso intolerante, misto de nacionalismo e defensor da moral familiar, novamente tomando a secularização como bode expiatório, dessa vez atentando para a “ira de Deus sobre a América”. Alguns anos antes de sua morte, o reverendo pronunciou sobre os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001: “Eu realmente acredito que os pagãos, os abortistas, as feministas, os gays e as lésbicas, [...], os que forçam a querer secularizar a América [...] eu aponto meu dedo para eles e digo: vocês contribuíram para que isso acontecesse.”

Cada vez mais, os ideais do fundamentalismo se assimilavam ao conservadorismo político do Partido Republicano. Ainda hoje, nos Estados Unidos, o perfil – ainda que estereotípico – que traçamos de um partidário republicano é o homem de família, branco, de classe média, geralmente ligado ao militarismo e, sempre – e mais importante – às igrejas protestantes fundamentais.

Atualmente, os fundamentalistas protestantes, com forte prestígio no partido Republicano e dominando instituições de ensino particulares e cadeias de rádio, TV e imprensa no interior do país, se empenham na luta pela segregação de homossexuais, a dissuasão do feminismo, do ateísmo e do direito ao aborto e ao divórcio e pela implantação do ensino religioso e do criacionismo nas escolas públicas, rejeitando o diálogo ecumênico e posicionando-se intransigentes frente a qualquer de suas convicções. Enquanto os ocidentais enchem o peito e miram seus indicadores a fim de repreender o extremismo islâmico, sua própria ignorância sustenta ações de mesmo cunho. (Continua)


Igor Falconieri


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Pois É

Sexta-feira, Junho 26, 2009



Foi assim. Do nada. As pessoas estavam assistindo à TV, no fim da tarde, quando foram surpreendidas por algum plantão ou noticiário 24 horas com manchetes do tipo “Sites supõem morte de Michael Jackson” ou “Astro do pop pode estar morto em hospital de Los Angeles”. De nada adiantou que oficializassem os rumores: O estado de incredulidade só passaria após três ou quatro telejornais anunciarem o mesmo fato. Só então partimos para as especulações sobre a causa da morte. Por fim, restou lamentar.

Talvez a figura mais visível e distinta do século XX – Andy Warhol que se revire no túmulo por não tê-lo feito mais painéis -, Michael Jackson tem sua – ou melhor, suas - imagens onipresentes no imaginário de qualquer pessoa viva, nos quatro cantos do mundo. Com os passos do Moonwalk e os versos famigerados de We Are The World e muitos outros notáveis, o cantor, compositor, dançarino, produtor, diretor, publicitário, empresário e filantropo redefiniu o conceito da palavra pop: o termo estabelecido nos anos 20 para designar canções de estrutura ritmada e do agrado popular ganhou proporções que ultrapassam o gênero musical, deixando seu traço em todas as mídias. Os mega-shows e os clipes de produção milionária ajudaram a compor a inconfundível imagem de excesso do astro que influenciou gerações.

Devia ser na primeira série, no fim dos anos 90, quando o cantor já nem emplacava tantos hits como alguns anos atrás, me lembro que competíamos no recreio da escola pra ver quem conseguia imitá-lo no Moonwalk. Mal sabíamos a ocupação ou a nacionalidade de Michael Jackson. Só sabíamos que era alguém famoso. Desmedidamente famoso.

A fama foi a glória e o martírio de Michael. Parece história de filme: O garotinho desajeitado que encontra um talento e logo é forçado a trocar as brinca- deiras pela agenda de espetáculos. O fim todos conhecem: Um adulto malsucedido em todos os cantos que não seja o de sua profissão, condenado à frustração e à eterna imaturidade. No filme do qual assistimos ontem a cena final, o prota- gonista é, ao mesmo tempo, um senhor e uma criança de 50 anos de idade, dos quais por 30 gozou de um extraordinário sucesso. Nos últimos 20 só pode contar com a excentricidade e os escândalos.

Os cabelos pegam fogo, o nariz afina sucessivas vezes, a pele se torna espantosamente clara. Aquela imagem inconfundível do excesso se converteu na de um bizarro e imprevisível camaleão, que logo foi acompanhada de processos por pedofilia e dívidas bilionárias. Um perfeito épico trágico, com direito a slogan clichê: Tudo tem seu preço.

A vida reservou a Michael alguns de seus melhores instantes, mas cobrou-lhos a altos juros. Nem a morte lhe foi complacente: é digno para um artista deixar seus fãs no ápice de seu prestígio e grandeza. Michael conheceu essas qualidades de tão perto como ninguém, mas se foi no ápice da derrocada e da vergonha.




Igor Falconieri


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O Terceiro Sexo, Parte 2

Quarta-feira, Junho 24, 2009



Em fevereiro, postei um artigo relatando algo sobre o cotidiano e a organização social das hijras, transexuais do sudeste asiático cuja existência carrega um valor místico e tradicional que as distingue como o terceiro sexo da espécie humana.

O modo de segregação que condena as hijras à vida marginal em micro-comunidades pode provocar no observador ocidental tanto reações de aprovação como de repúdio. Sua sentença tenderá a obedecer a valores próprios, que podem se assimilar ou ir de encontro aos da sociedade hindu. Por exemplo, um fundamentalista cristão pode posicionar-se a favor desse estigma social, pois, mesmo não com- partilhando da crença que o sustenta, suas noções de pecado e heresia têm embasa- mento semelhante aos da mesma. Ao mesmo tempo, outro pensador poderia susten- tar-se nos princípios de igualdade civil estabelecidos no ocidente, e condená-lo.

Acontece que, qualquer que seja o julgamento, esse será por sua própria natureza um fatal equívoco: Uma vez que o valor é condicionado pela cultura encontrada em determinado espaço e tempo, seu juízo implica subjetividade, jamais atingindo um estado completo de rigor. Julgar a qualidade de um grupo étnico demandaria em arvorar um ideal absoluto de conduta, um conjunto de valores imposto como o parâmetro pelo qual enquadraríamos as diversas formas de comportamento humano nas simples noções de bom e ruim. Poderíamos até mesmo hierarquizar as culturas, baseados num ideal de generalidade das ações humanas.

Esse ideal, além de pretensioso, não existe. Entre os grupos étnicos, as opiniões e costumes se tornam legítimos pelo prestígio da tradição. A inocente observação dos hábitos de seus ancestrais é o que leva um indivíduo a apropriá-los, assimilando-os durante sua formação ético-moral como valores inatos. Alguns desses valores chegam a um estado estabelecido de tal tenacidade e firmeza que se tornam inquestionáveis. Logo, qualquer variação de conduta é tomada como anti-natural, o que pode gerar repressão – de onde se originam transtornos sociais como o das hijras – ou o conhecido choque cultural.

Michel de Montaigne (1533-1592) viveu no momento em que conquistadores espanhóis e portugueses tinham seu catastrófico encontro com as tribos do Novo Mundo. Em seu Ensaio dos Canibais (“Des Cannibales”), o filósofo francês faz elogio da antropofagia ao enxergar seu valor ine- rente à cultura indígena, remando contra a maré etnocêntrica de seu tempo. Montaigne rejeita o princípio absoluto que inferioriza os costumes dos povos americanos ante aos europeus, reconhecendo a diversidade da natureza humana. Para ele, práticas como o canibalismo podem não ser condenáveis; ao contrário, “cada uso tem sua razão”, podendo compor importantes pilares da organização social.

Assim, Montaigne relativiza o julgamento moral. "Cada qual chama de barbárie o que não é de seu costume". O relativismo montaigniano é um largo passo na valorização da diversidade, um pilar da tolerância que tem sido erguido a duras penas. Entretanto, mesmo esse pensamento tão à frente de sua época tem lá seus limites.

Suprimir o juízo da diferença a fim de engrandecê-la pode ser outro equívoco fatal, pois isso implicaria na equipa- ração de valores, muitos completamen- te incompatíveis. Para a axiologia, ciência que propõe uma abordagem filosófica e crítica dos conceitos de valor, o conhecimento – encarado aqui como a própria cultura - se origina da relação entre a realidade e o ideal absoluto encarado como valor. Mais a fundo, qualquer sociedade toma com- portamentos não-naturais que tracem sua concepção de bom; Mesmo os antropófagos, defendidos por Montai- gne, uma vez que o canibalismo não é uma relação trófica comum aos huma- nos e sim uma prática de valor místico.

Levar o relativismo a rigor implicaria ainda em negligenciar tratamentos desumanos – mesmo que esse conceito também seja relativo – como, por exemplo, a marginali- zação forçada das hijras.

Contudo, apesar das falhas do pensamento relativista e, paralelamente, do absoluto, um fato contra o qual não há réplica é o de que a diversidade, essa sim, é um traço inato da gênese humana. O próprio Montaigne alega em um de seus ensaios: “Em verdade, o homem é de natureza muito pouco definida, estranhamente desigual e diverso. Dificilmente o julgaríamos de uma maneira decidida e uniforme." Frente a tais sentenças, torna-se vital para o crescimento da sociedade que se aprenda a receber a cultura e o comportamento do outro sem jamais avaliá-los senão intima- mente, dispensando das relações humanas o que quer que for dogmático ou arvorar-se absoluto. Esses são reais valores que qualquer que seja o grupo étnico deve incorporar a seu hábito.


Igor Falconieri


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Fábrica

Terça-feira, Junho 23, 2009



Texto escrito para o colégio, em 23 de Junho de 2009. Análise crítica da canção Fábrica, do Legião Urbana, em pararelo com o assunto Revolução Industrial

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Nosso dia vai chegar         
Teremos nossa vez         
Não é pedir demais         
Quero justiça         
Quero trabalhar em paz         
Não é muito o que lhe peço         
Eu quero um trabalho honesto         
Em vez de escravidão         

Deve haver algum lugar         
Onde o mais forte         
Não consegue escravizar         
Quem não tem chance         
De onde vem a indiferença
Temperada a ferro e fogo?
Quem guarda os portões da fábrica?

O céu já foi azul, mas agora é cinza
O que era verde aqui já não existe mais
Quem me dera acreditar
Que não acontece nada
de tanto brincar com fogo
Que venha o fogo então

Esse ar deixou minha vista cansada
Nada demais.


Renato Russo

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O discurso do autor se assemelha aos manifestos de caráter socialista difundidos entre o proletário europeu do século XIX. Essa proximidade se evidencia na pretensão em estimular insurreições populares através do vocabulário composto por expressões tipicamente utópicas (§ 1), comuns nesse exemplo literário.

O eu assimila a condição de oprimido de seu extrato social e atribui o encargo de seu sofrimento à industrialização e à corrupção inerente às camadas dominantes (§ 2). Ele ainda culpa a indiferença de que sua classe é vitima (v. 13, § 3) e se utiliza de objetos da indústria – ferro e fogo (v. 14, § 3) – explorando seu sentido conotativo ligado à aspereza do trabalho.

Nas últimas estrofes, são enumerados alguns prejuízos ambientais, encarados de maneira dramática pela visão do eu lírico. Em seguida, ele retoma o objeto fogo (v. 21, § 4) aludindo às formas de perigo inevitáveis do crescimento fabril. Por fim, a repetição do verso “nada demais” (v. 22, § 5) expressa a insignificância que têm os efeitos da indústria ao bem estar comum do único ponto de vista dominante, o econômico.


Igor Falconieri


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Álibi, 1978

Domingo, Junho 21, 2009





O clima boêmio, traçado pelo torpor do sopro e das cordas, e o appeal feminino, oferecido pelas canções de alguns dos mais virtuosos compositores no Brasil, compõem toda a sedução de Álibi, o disco mais popular da carreira de Maria Bethânia: Sua vendagem de 1 milhão de cópias rendeu à baiana o título de primeira cantora brasileira a atingir essa marca em um único LP.

Os tempos eram diferentes dos de Carcará: a lenta abertura ainda era capaz de aquecer as esperanças, o AI-5 estava a ponto de ser revogado e todo aquele engajamento já se fazia desnecessário. Com a poeira abaixada restava um país mais acomodado ao estrangeiro e mais burguês, onde imperavam as discotecas e as novelas da Globo.

Bethânia acerta o alvo em cheio ao interpretar um repertório composto em sua maioria por sambas-canção em uma roupagem pop que beira os excessos do brega: O romantismo kitsch evoca os tempos de Ângela Maria e Orlando Silva em faixas como Negue e O Meu Amor; essa última, o ápice das declarações libidinosas da mulher que vive em Chico Buarque. A voz estupendamente rija da baiana aos seus 32 anos ecoa ainda os versos de veteranos como Caetano Veloso no choro Diamante Verdadeiro e em A Voz De Uma Pessoa Vitoriosa, e de futuros parceiros de longa data como Djavan na canção-título e Gonzaguinha na catártica Explode Coração.

Mas é em Ronda que a cantora narra do auge à depreciação da pândega vida nos botequins. Escrita em 1945 pelo médico, zoólogo e também bacharel em boemia Paulo Vanzolini, a canção de um eu ciumento que, atrás de um “acerto de contas”, acaba envolvido em pancadaria na noite paulistana, recebeu cinco gravações até chegar à voz de Bethânia. Vanzolini conta que estava num bar na Avenida São João enquanto observava uma mulher aflita buscando em todos os cantos e mesas, aparentando estar à procura de alguém, talvez um homem. Ele imaginou como seria caso ela encontrasse esse homem jogando e bebendo com outras mulheres em qualquer bilhar na madrugada.

A frase final, “Cena de sangue num bar / Da Avenida São João”, foi citada por Caetano em sua célebre ode à São Paulo, naquele mesmo ano; uma homenagem que acabou sendo entendida como plágio por Vanzolini.

Igor Falconieri


Álibi
Philips, 1978

Lado A:
1. Diamante Verdadeiro
2. Álibi
3. O Meu Amor (com Alcione)
4. A Voz De Uma Pessoa Vitoriosa
5. Ronda
6. Não Dá Mais Pra Segurar (Explode Coração)


Lado B:
1. Negue
2. Sonho Meu (com Gal Costa)
3. De Todas As Maneiras
4. Cálice
                                                                      5. Interior

     
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"Compensação" Legal

Sábado, Junho 20, 2009



No meio estudantil, em que eu convivo, nenhum assunto levanta mais opiniões quanto o sistema vigente de cotas universitárias. A atual legislação prevê a reserva de 50% das vagas para estudantes egressos de escolas públicas, em especial negros e indígenas, nas instituições públicas federais de educação superior. Como aluno da rede particular de ensino, sou um dos poucos que defende abertamente na classe a aplicação de cotas para algumas classes de estudantes, como medida paliativa para o déficit de escolaridade no Brasil.

Justifica-se que as reservas para negros e índios visam uma pretensa compensação por seu rebaixamento social no passado, mas, na prática, as cotas para esses grupos somente podem alcançar um nivelamento das estatísticas, reflexos matemáticos da inferioridade econômica das minorias étnicas no Brasil. Esses números só são reais se tomamos em consideração critérios que identifiquem essas etnias; em outras palavras, se as segregamos.

Essa atitude é uma patente separação racial, além de imprecisa – como qualquer distinção do tipo -, ocasionando episódios como o dos "gêmeos da UnB", Alex e Alan Teixeira da Cunha, em 2007.

No entanto, se tratamos de estudantes de escola pública e baixa renda, temos, além de números, uma fato inerente a todos eles: a incompatibilidade com o estudante do ensino particular. Sim, depois de dezenas de ideologias contrárias - a maioria apontando exatamente a distinção intelectual entre as raças -, a ciência atestou que a inteligência não passa de um traço biológico, que não escolhe seus contemplados avaliando a cor ou a posição econômica. Mas a formação científica não é nenhum presente da natureza. Seu desenvolvimento é árduo, seguido durante toda a vida, e só acontece amparado por uma boa educação.

O ensino público – ressaltam-se aqui as universidades públicas – é uma garantia legal que deve ser entendida como atenuante da disparidade social e econômica, e não como propulsora dela. Nos cursinhos e nas altas instituições de educação fundamental e média, onde são mantidos os métodos mais eficientes de aprendizado, paga-se caro para estudar. Pra quem só resta a escola municipal ou a do estado, a melhor maneira é acostumar-se à falta de professores, ao material obsoleto e à baixíssima carga horária. No fim do terceiro ano, ambos se candidatam à vaga na federal: um por almejar um ensino e um diploma de bons créditos e o outro por tê-la como sua única opção.

O fato de encontrarmos nas universidades públicas uma maioria de ex-estudantes de cursinhos, aqueles cujas famílias poderiam pagar por uma faculdade particular, apenas agrava e perpetua a desequilibrada concentração de renda no país, pois é a educação que possibilita – ao menos na teoria - a mobilidade social.

Está claro que a solução para essa deficiência implica em uma reestruturação bem mais penetrável no sistema educacional brasileiro, tocando, sobretudo nas bases do ensino. Mas, enquanto isso não acontece, medidas semelhantes às cotas para estudantes pobres poderão sanar, ao menos em parte, os números e a realidade de alguns.

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A foto que ilustra esse post faz parte de um momento ainda mais crítico na história da educação e dos direitos civis, que, apesar de não condizer com a realidade brasileira e de registrar uma situação em muito pouco semelhante à atual controvérsia das cotas, recompõe em nossa memória um degrau vencido pela lenta escalada humana em favor de uma sociedade mais igualitária.

Elizabeth Eckford (de óculos escuros) é uma entre os nove estudantes que integrou o seleto grupo dos primeiros afro-americanos a ingressar na Little Rock Central High School, em Little Rock, no Arkansas. Até a lei federal de 1954, a renomada instituição de ensino só aceitava o ingresso de estudantes brancos. Em setembro de 1957, alguns dos estudantes com os melhores desempenhos nas escolas negras foram selecionados para nove vagas no colégio. Em meio a protestos de manifestantes brancos conservadores e até da recusa do governador em permitir o ingresso dos alunos negros, os nove estudantes apenas entraram no prédio do colégio após semanas de tumulto, escoltados pela 101ª divisão do exército norte-americano.

A fotografia histórica de Will Counts é uma das 100 imagens do século XX, de acordo com a Associated Press.


Igor Falconieri


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Progresso e Qualidade de Vida

Quinta-feira, Junho 18, 2009


Foto: Detroit Industry, Diego Rivera

Desenvolvimento Sustentável é uma das expressões mais famigerados na imprensa e na publicidade, quase um chavão, tamanha a sua evidência na atual pauta política. Entende-se por esse conceito como um ainda mal delimitado modelo de desenvolvimento econômico capaz de manter a qualidade da vida das atuais gerações sem desfavorecer as futuras. Esse modelo procura equilibrar o progresso social e a preservação do meio-ambiente a fim de que esse bem-estar coletivo seja mantido por muito tempo. Algo que efetivamente ainda não acontece.

A adoção desse modelo toca nos valores mais sólidos e bem aceitos do capitalismo, que privilegiam a viabilidade econômica em desfavor do bem-estar comum. Implantá-lo dependeria de uma verdadeira revolução, que só poderia ser introduzida pelo senso comum. Uma revolução que subverte o comportamento geral e convoca desde o magnata da manufatura ao humilde consumidor.

Claro, essa não é a primeira vez na história em que há necessidade de mudar. Mas talvez seja a primeira vez em que dialogamos não com grupos sociais ou com os detentores do poder e sim com nós mesmos. Melhor dizendo, estamos em ponto de reavaliar nossa própria ética. Tudo aquilo que convencionalmente estava impregnado ao nosso costume, e por isso chamávamos de “certo”, agora está em discussão. “Talvez enriquecer e ostentar luxo não seja tão bom assim.” “Talvez o meu conforto não dependa só do que eu possa comprar” “Talvez todos pudéssemos viver com menos.”

São bem-vindas, sim, do estado medidas públicas de incentivo à sustentabilidade como a implantação de fontes renováveis de energia e de usinas de reciclagem eficientes, mas mesmo os moinhos e as máquinas limpas logo se tornarão obsoletos e ineficientes em função do avanço industrial, que tem suas rédeas na mão do consumidor.

Além disso, não há meios de fabricar sem matéria prima. Logo teremos uma população de 10 bilhões de pessoas; comendo, vestindo, dirigindo e assim inflando o balão da indústria e acelerando sua esteira rolante que inevitavelmente engole mais e mais florestas e invalida o solo. A agravante é o mercado globalizado e voraz que agrega ao baixo preço da manufatura a qualidade insalubre de trabalho do operário chinês, a intoxicação por chumbo do mineiro cazaque, e a condição de escravo do agricultor nigeriano. A viabilidade econômica direcionada ao baixo custo de produção acaba por desencadear um processo inverso, onde o custo social é imensamente maior.

Nada disso é sustentável. Nem sequer hoje, quanto mais no futuro. Somente a participação da sociedade é capaz de alterar o modelo econômico vigente em favor da qualidade de vida. E somente uma reestruturação ética é capaz de alterar o conceito que tem a sociedade sobre qualidade de vida.

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Texto escrito para o colégio, em 18 de Junho de 2009,
sobre o tema "Como conciliar Desenvolvimento Econômico e Sustentabilidade".


Igor Falconieri


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Libertas Quæ Sera Tamen

Quarta-feira, Junho 03, 2009



No último sábado, estive em Ouro Preto em uma excursão do colégio. Apesar de ser mineiro, nunca havia visitado a cidade histórica, e jamais havia imaginado que a antiga Vila Rica guardasse uma atmosfera tão inspiradora e atraente como a que eu presenciei. Respirar o clima rico e transcendente da cidade, como se ela pudesse, em suas ruas estreitas, ter guardado os passos de cada pessoa que viveu por lá, me proporcionou uma experiência inédita e fustigante. Cada morro, cada sobrado, cada pequena história que os guias contavam, tudo é espantosamente inspirador.

O texto que segue é parte do relatório da excursão entregue à escola.

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A cidade de Ouro Preto, Vila Rica no ciclo da mineração é representante do inevitável de acelerado desenvolvimento urbano, do esplendor e da ostentação imortalizados na arte e da espantosa agitação social e política, todos resultados da existência, na região, da matéria de maior apreço econômico para o mercantilismo português: o ouro.

As vielas que contrastam com os largos blocos de pedra do prédio onde funcionou a câmara e os altares das capelas abarrotados de ouro e minúcias barrocas registram a austeridade e transcendem a atmosfera opressora, do tempo em que a lei e a fé deixavam suas marcas pujantes nos rostos dos anjos de barro e nas costas dos homens de cor.

Tanta rispidez tomou de inimiga a própria essência transformadora e inconstante que habitava o núcleo burguês e tomava os espíritos irrequietos, a fim de que, ainda que tardiamente, os homens das minas também fossem livres.

Contudo, chegou o dia em que todo esse revirão se cessaria. O ouro se deu por acabado enquanto a Vila se dava por morta, aquietando seus sobrados em seu ninho montanhoso. Foi assim que a estagnação econômica ajudou a preservar e adormecer, humildes e silenciosos, os ares do que já foi pomposo e revolto.

E esse ares, que hoje fazem ronda no clima frio dos morros e dividem seu belo cenário com visitantes e moradores, atrai e inspira os homens, das minas ou não; mas livres, ainda que tardiamente.


Igor Falconieri


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O Morro tem Vez?

Terça-feira, Junho 02, 2009


Foto: Morro da Favela, Tarsila do Amaral

Dados recentes do Programa das Nações Unidas para os Assentamentos Humanos (UN-HABITAT) estimam que 52,3 milhões pessoas, o equivalente a 27,5% da população brasileira, vivem em favelas. Somente entre 1991 e 2000, segundo o IBGE, as favelas brasileiras ganharam mais 717 mil domicílios. Um crescimento espantoso que, favorecido por políticas públicas frustradas, contribui para o alarmante déficit habitacional brasileiro de 90%.

Favelas, nós bem sabemos o que são - e, depois da enxurrada de filmes e jogos eletrônicos que as tomam como ambiente, qualquer gringo também deve fazer alguma idéia. E bem sabemos ainda que a subcondição de moradia não é o único problema social agregado à esses indesejados aglomerados populacionais. O êxodo rural e as migrações internas há muito forçam grupos pobres da população a ocupar as periferias das cidades, regiões sem valor fundiário e de precária ou nenhuma estrutura habitacional. Mas foi com a abolição da escravatura que se multiplicou o contingente de migrantes, que agora contava com a adesão de ex-escravos que se dirigiam, sobretudo, à então capital do Brasil: O Rio.

Marginalizados pelo patente racismo do fim do século XIX ou privados de renda formal nos centros urbanos, aos negros recém-alforriados restavam as regiões periféricas. Entre 1872 e 1890, a população da capital brasileira duplicou, passando de 274 mil para 522 mil habitantes. No Rio, além disso, políticas de reforma urbana como a do prefeito carioca Pereira Passos entre 1902 e 1906 demoliram cortiços do centro e confinaram seus moradores ao mesmo destino dos ex-escravos: os mocambos nos morros.

Hoje os mocambos são favelas. Grandes, somam no mínimo 56.000 habitantes em uma apenas – a da Rocinha. Abrigo para os ex-cativos de 1888, para os retirantes dos anos 40 e 50 e para qualquer cidadão metropolitano empobrecido em qualquer ano ou década, as favelas são redutos dos extratos mais baixos da população brasileira. Sejam brancos, negros, paulistas, pernambucanos, pais-de-santo, evangélicos, funkeiros, rappers, sambistas, prostitutas, mães de família, traficantes ou policiais. A diversidade só não aparece em um sentido: todos são pobres.

A favela é, como bem sabemos, um conglomerado de pobres, e, sendo assim, acolhe inúmeros problemas sociais dentre os mais relevantes no Brasil. Na verdade quase todos eles. O índice de desnutrição no país, por exemplo, é de 19% entre os moradores de favelas, contra 5% nas outras áreas urbanas. Quanto à esco- laridade, todas estão abaixo da média nacional. Nas favelas do Rio, 15% da população com mais de 15 anos é anal- fabeta, contra 6% no asfalto. De acordo com a ONU, em termos de desigualdade entre os moradores das favelas e de áreas urbanizadas, o Brasil só pode ser compa- rado à Costa do Marfim.

E é por isso que o estado, ao associar a favela à origem desses e de outros problemas como o tráfico de drogas, a degradação do espaço urbano e a violência generalizada, a toma como sua inimiga. Mal compreende o estado que a favela não é de seu domínio efetivo. Algumas favelas funcionam como estados próprios, com estru- tura independente, onde regem as leis do controle local.

Para entender as origens dessa autonomia informal das favelas, temos de exemplo a pesquisa da antropóloga Alba Zaluar publicada em 2007 no jornal O Globo, na qual apenas 15% dos moradores das favelas do Rio declararam que gostariam de deixar o morro. Uma vez à margem, não incluídos no interesse público no passado, os habitantes dos morros assimilaram sua condição de sociedade alheia, passando a se identificar com qualquer entidade próxima que reforçasse sua unidade ou os oferecesse amparo. Isso resultou em uma segregação bilateral, na qual a favela é também, por ação própria, um gueto.

No interior de quase todas as favelas em condição de gueto no Brasil, o detentor majoritário do poder é o narcotráfico, que atua amparado por uma invejável sustentação popular. O tráfico emprega a população local, socorre as famílias e toma a brecha no papel da segurança pública ao fixar sua própria justiça nos morros. Para um morador da Rocinha, a autoridade legítima é o traficante, pra quem seu irmão trabalha e de quem a mãe recebe cestas básicas periodicamente. Ele simboliza a mão justiceira e altruísta, que mata mas protege os seus; algo semelhante a Lampião para os nordestinos da época do cangaço.

Assim, na prática, torna-se um equívoco falar em guerra civil nas favelas. Temos poderes distintos no campo de batalha, como dois países envolvidos em um conflito além da diplomacia. De um lado, a autodenominada sociedade brasileira, que, relutando em enxergar seu inimigo, estampa novas baixas diariamente nos jornais. Do outro, um amontoado de marginais, um submundo que cresce acelerada e silenciosamente, envolto por um cinturão intransponível de barracos, armas e pessoas.

Nenhum indivíduo marginalizado pode zelar pela sociedade, já que dela é estranho. Se segregado, velará apenas por seu próprio grupo minoritário, tomando o restante alheio como opressor. Sua forma de se rebelar pode ser violenta e custosa, o que levará a contraparte a aceitar o pedido de inimizade. Pronto, está formado o ciclo vicioso que compromete a vida de 100 mil brasileiros todos os anos.

Impedir o avanço da favelização e de seus efeitos é uma ação que passa pela necessidade imprescindível de incluir integralmente o morador do morro ao restante da sociedade, e não afastá-lo dela - como se faz com muros ou outras ações tão intransigentes quanto. E isso independe de onde ele more ou do tamanho de sua casa. Ele deve sentir-se amparado e limitado pelo mesmo estado que ampara e limita os moradores do asfalto. Essa vez do morro não deverá ser um desfile que fará toda a cidade cantar, mas a vez em que as marchas da cidade e do morro sejam justamente a mesma.


Igor Falconieri


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Novo, Legal e Gratuito

Domingo, Maio 31, 2009


Foto: (afm)

Se há algo em que todas as gravadoras brasileiras hoje se assemelham é a sua inviabilidade frente à pirataria. E, para combater os prejuízos trazidos pela cópia ilegal, as mais desesperadas modalidades de difusão de mídia têm sido testadas em desfavor do já ultrapassado compact disc.

Nesse mar de aflitos, a Trama, de João Marcelo Bôscoli, propôs a seus associados o lançamento do Álbum Virtual, inaugurado por Tom Zé em meados de 2008. O projeto consiste na distribuição gratuita e legal de discos completos em formato digital, disponibilizado pelo próprio site da gravadora e custeado por empresas anunciantes. O grande diferencial oferecido pela Trama é a possibilidade que também tem o internauta de conhecer a arte externa do disco – capa, encarte completo e contra-capa -, além de extras como vídeos e faixas-bônus. Tudo de graça.

De CSS a Ed Motta, o selo já contabiliza seis novos lançamentos nessa modalidade, que tem sido encarada com otimismo no Brasil ao lado de outras ações inovadoras no segmento ao redor do mundo, como o comentado lançamento de In Rainbows, dos ingleses do Radiohead, em 2007. O patrocínio do último lançamento do projeto, C_mpl_te, do Móveis Coloniais de Acaju, é oferecido pela Volkswagen, que reverte o pagamento aos artistas pelos downloads dos internautas.

Segundo Bôscoli, a idéia do Álbum Virtual foi inspirada no modelo de disse-minação da TV aberta, “que oferece conteúdo gratuito há décadas e é o patro-cinador quem paga”. Entretanto, a festa do internauta tem hora marcada: os discos, incluídos extras e recursos visuais, ficam disponíveis por um tempo determinado. Após o vencimento, os CDs continuam somente nas lojas. Pra quem paga, claro.


Igor Falconieri


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Métrica/Seleções de Maio

Sábado, Maio 30, 2009





Em fevereiro desse ano, fui convidado pelo editor Vicente Gironda, um argentino que, além de muito bacana, fala português – e como isso ajuda! –, a participar do time de colaboradores de sua revista. A Métrica é uma publicação bimensal independente especializada em cultura, com um quê direcionado à música brasileira – coluna da qual eu agora participo – e ao jazz. A periódica é distribuída gratuitamente em Buenos Aires e Mar Del Plata e também é disponível em PDF em seu site.

É espantoso o interesse dos estrangeiros na cultura brasileira – pelo menos quanto aos argentinos posso atestar. Apesar da manutenção de alguns estereótipos que ainda associam a cultura tupiniquim à condição de exótica ou música latina, os estrangeiros costumam dedicar boa parte de sua coleção de CDs a nossos conterrâneos.

E não somente os nomes patentes como Caetano Veloso (a resenha de Zii & Zie foi feita para a Métrica) e Bebel Gilberto ocupam as prateleiras dos gringos. A exemplo temos Paêbirú, o mítico e cobiçado disco duplo de Lula Côrtes e Zé Ramalho: Enquanto a preciosidade é leiloada a preços que chegam a cinco mil reais no Brasil, a gravadora alemã Shadoks editou o álbum em CD e ainda colocou no mercado uma edição limitada em vinil de alta fidelidade. Só lá.

As resenhas abaixo ressaltam alguns lançamentos de destaque no mês de maio para a Métrica. Mas são destinadas a qualquer público.



Além do nome incomum e de apresentações enérgicas e bem humoradas que fizeram a cena do Móveis Coloniais de Acaju, os nove músicos de Brasília agora contam com a mão propulsora de Carlos Eduardo Miranda. O produtor é um dos criadores e diretores do projeto Álbum Virtual, do selo Trama (leia mais aqui), e o responsável pelo aprimoramento da desmedida mistura de ska e indie rock que levava a banda em seu disco anterior.

C_mpl_te é um largo passo na escalada do grupo, que adere aos teclados e riffs mais sutis mantendo ainda o tom cômico de suas letras. O resultado é um frescor pop à lá Revolver, marcado em faixas cheias de fôlego como O Tempo.
  


Não é à toa que o longínquo primeiro disco de CéU, lançado em 2005, tenha alçado tantas atenções para a cantora paulistana: Sua voz swingada consegue se equilibrar tenuemente entre a MPB e o Soul, vestida de uma instrumentação moderna que rodeia o Samba e o Hip Hop.

A espera dos fãs pelo segundo álbum se satisfez com o lançamento repentino do EP Cangote, no último mês. As quatro faixas foram disponibilizadas na internet pelo selo independente Six Degrees, como prévia do próximo disco. Vale a pena se deparar com o órgão na faixa-título e com o ritmo de baião em Visgo de Jaca.

  


Em seu segundo álbum para a Verve, Luciana Souza interpreta canções de co-autoria com o marido e produtor Larry Klein, sendo duas delas adaptações de poemas de e.e. cummings, além de contar com a colaboração de Paulo Leminski e uma canção original de Paul Simon.

Como sugere o próprio título, a atmosfera é de calmaria e suavidade, um som mais adequado para um fim de tarde à lareira do que a um dia ensolarado em qualquer praia do Rio – como é o cenário tradicional da bossa nova. Ainda assim, o samba marca presença nas faixas Adeus América/Eu Quero um Samba – canções popularizadas na voz e violão de João Gilberto – Circus Life, e Sorriu Para Mim.

  


O samba na voz de Mariana Aydar e na produção de Alexandre Kassin (Caetano Veloso, Los Hermanos) tem o novo frescor que faz distinguir Peixes, Pássaros, Pessoas no oceano de lançamentos de novas intérpretes do gênero. O disco é inteiramente composto de repertório inédito, assinado por compositores contemporâneos e alguns pouco conhecidos, como Duani, parceiro de música e vida da cantora e que assina sete das treze canções.

Mariana ainda transpõe-se além do seu viés sambístico, arranhando o baião em Tá?, flertando com a psicodelia em Peixes (faixa que nos desperta uma derradeira lembrança do estilo vocal de Elis Regina) e sussurrando versos quase nus em Tudo Que Eu Trago No Bolso, acompanhada pela guitarra de Lanny Gordin. O álbum ainda conta com a participação de Zeca Pagodinho e da cantora cabo-verdiana Mayra Andrade.

  
Igor Falconieri

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Igrejas, Prédios e Baobás

Quinta-feira, Maio 28, 2009



Só aos 27 anos é que o francês Alexandre Duret-lutz, doutor em engenharia da computação, conseguiu combinar hobbie e trabalho e encontrar um grande talento: Com um bom olho, embaraçosas fórmulas matemáticas e um aparato tecnológico relativamente simples, composto de uma câmera Cybershot DSC-T5 e o software livre Gimp, para Linux, ele é o autor de mais de 300 mini-planetas como o da foto acima.

Trata-se de um trabalho de Projeção Estere- ográfica, no qual o fotógrafo converte panoramas em esferas. Em um mesmo local, Duret-lutz tira dezenas de fotos ao seu redor, horizontalmente em todas as direções, e depois junta mais algumas fotos do chão e do céu. Ele usa uma lente olho de peixe, capaz de registrar imagens num ângulo maior que as lentes comuns. No computador, ele reúne as fotografias nivelando os contrastes de cor e luz e, por fim, liga os dois extremos do panorama obtido, formando uma curvatura de 360º. O resultado desse melindroso trabalho são esses micromundos que nos dão a dupla sensação de infinitude e isolamento.

Os planetinhas, compostos sobretudo por paisagens de Paris, Praga e do interior da França, tem sido comparados aos cenários de O Pequeno Príncipe, romance do também francês Antoine de Saint-Exupéry.

No seu álbum no Flickr, ele revela detalhadamente (em inglês) sua técnica e ensina a quem quiser viver em seu próprio mundo do Vaidoso ou do Acendedor de Lampões, com direito à sua Rosa ou seus baobás.




Igor Falconieri



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Prezados (des)Valores

Segunda-feira, Maio 25, 2009



A sociedade humana tem uma incrível capacidade de perpetuar valores, de transcender conceitos ao longo de gerações, mesmo que equivocados e danosos. Os pais propagam aos filhos suas próprias noções de comportamento e recato, e é por essa carga familiar que os filhos incorporam suas particularidades não tão inocentes, como os excessos da austeridade e da fé e o preconceito. Com toda sutileza, a família, a mais antiga e respeitada entidade moral nas relações humanas, se torna a vilã sociológica nos tempos atuais.

É inquestionável o papel educador da família como primeira formadora sócio-intelectual de um indivíduo. No entanto, o desenvolvimento divergente e não-linear da educação parental, à medida de sua importância, acaba sendo o propulsor dos futuros desentendimentos que terá um indivíduo ao articular com membros de sua sociedade oriundos de outras famílias. No seio familiar, são cultivados conceitos próprios e às vezes exclusivos do que é certo e convencional. Esses conceitos podem se cristalizar através de uma linhagem, aumentando a intransigência com que eles são afirmados.

O resultado é o que chamamos de preconceito monolítico, comportamento no qual se toma um ideal de família padrão, tradicional segundo a sociedade a qual ela integra. Na cultura ocidental, essa ortodoxia familiar esteve presente inclusive na mídia, como nas típicas alegorias das propagandas e nos seriados de TV norte-americanos da década de 50: Neles é regra encontrarmos pessoas jantando ou assistindo televisão numa casa de classe média, todos brancos, sempre afáveis, onde a mãe, com seu cabelo flapper ondulado e seu vestido longo, se dedica satisfatoriamente ao trabalho do lar e, as crianças, bem aparentadas, aguardam ansiosas à chegada do pai, em seu terno azul-marinho e ostentando seu cabelo curto e cintilante, impecavelmente partido da direita para a esquerda.

O grupo familiar monolítico não lilita-se ao estereótipo: Também julga qualquer variação além de si como um desvio, uma anormalidade. Isso causará mal-estar, dentro e fora do ambiente parental, a qualquer membro que, por escolha ou não, opor-se aos restritos valores admitidos por seus familiares. O sexismo e a endogamia estão entre os conflitos mais associados às famílias tradicionais, que, além de refutarem a troca de papéis domésticos e a miscigenação entre castas econômicas, censuram relações familiares distintas como a monoparental – na qual existe apenas ou o pai, ou a mãe, sendo a última alvo maior de preconceitos - e o casamento entre indivíduos do mesmo sexo.

Vale lembrar a pais, mães, avós e filhos que o conceito de família é variável em todo o mundo, e que essa deve ser encarada como um espaço de convívio sócio-cultural como qualquer outro; portanto, em constante mutação. Abolir chavões consolidados na cultura popular e reconhecer a multiplicidade de interações sociais de maneira alguma corromperá a convivência humana: apenas a tornará mais prazerosa.


Igor Falconieri


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Com vocês, Os Perpétuos

Domingo, Maio 24, 2009



Não é nada comum manter-se no gosto popular brasileiro por muitos anos: A cultura tupiniquim tem em igual proporção riqueza e voracidade, capaz de condenar alguns de seus artistas ao total ostracismo e, instantânea e facilmente reocupar seus lugares com novos ídolos. Entretanto, há um notável grupo de famosos de longa data que pode dar-se ao luxo de chamarem-se exceções.

Hebe Camargo, por exemplo, com oitenta anos em março e uma grande estima que segue rente há décadas, desafia qualquer especulação sobre uma possível aposentadoria e continua a figurar nos sonhos de qualquer aspirante a apresentadora. Outro veterano da TV, o showman Sílvio Santos não fica atrás em popularidade, com seus imutáveis programas de auditório que reproduzem os mesmos formatos da era do Rádio e do início da televisão.

O mais curioso de se observar é que esses mesmos exemplos de longevidade são também de neofobia: Roberto Carlos, um raro exceto da Jovem Guarda – o gênero pop cronometrou à risca os quinze minutos de fama de muitos cantores -, ainda é celebrado como Rei, mesmo não tendo apresentado nada que fosse de fato grandioso ou original ao público nos últimos trinta anos. Serão os velhos jargões da Hebe e aquele mesmo terno branco e cabelos compridos do Rei a fórmula de sua perpetuidade? Como alguns artistas conseguem manter tão vivo seu prestígio sendo tão obsoletos e estereotípicos?

A resposta corresponde exatamente ao que menciona a pergunta: a não renovação de um comportamento artístico é o que dá certeza ao público de que sempre encontrarão em seu ídolo os mesmos traços que conquistaram sua apreciação no passado. É o que a professora Maria Thereza Fraga Rocco, especialista do núcleo de teledramaturgia da USP, chama de memória afetiva. Para ela, os personagens perpetuados por esses artistas se tornaram familiares ao telespectador, a ponto de que até mesmo seus clichês os coloquem em posição privilegiada perante a um artista novo, que ainda precisa alcançar a intimidade do público.

O que não se sabe é por quanto tempo esse carinho preferencial pode continuar a existir, uma vez que, ao evitar se arriscarem pelo inédito, esses ídolos não conseguem renovar seu público, ameaçado de extinção.


Igor Falconieri


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Zii e Zie, 2009

Sábado, Abril 25, 2009




Foto: Korydwenn

Quem é Caetano Veloso? O homem de meia idade que conheci pela televisão durante a infância nada me chamou a atenção de imediato com o som calmo e pausado de seu violão e seu jeito de erguer as sobrancelhas enquanto cantava. A imagem do cabeludo, marginal dos trópicos que encontrei no começo da adolescência fartava minha curiosidade em saber por que tal figura de canto entorpecido e cabeça grisalha era tão cultuada ainda em meus tempos.

Ouvi seus discos. Li seus textos e livros. E, depois de tudo, Caetano ainda me intriga: Sinônimo de inquietude e constante metamorfose, o compositor brasileiro de Santo Amaro da Purificação, Salvador, São Paulo, Rio, Nova Iorque e Londres inaugurou sua inusitada incursão pelas vertentes alternativas do Rock com o disco , ao lado da banda homônima, formada por músicos que mal eram nascidos enquanto o baiano entoava Alegria, Alegria em frente às vaias e berros dos festivais.

Caetano é um exemplo quase único no Brasil de junção entre experiência e constante sintonia com que há de mais novo no universo do entretenimento – a julgar pela sua turnê Obra em Progresso, que, numa tendência que está em tempo de se tornar popular por aqui, precedia o lançamento do álbum -. E o resultado disso é extraordinário.

Zii e Zie amplia a proposta iniciada por , fazendo coexistir, por formas e arranjos ainda mais delineados e contemporâneos, o Samba e o Rock. Essa transa – eis um nome definitivo para a obra de Caetano, com seu prefixo repetido nos subtítulos do álbum – ocorre ainda tão sutilmente que chega a não ser possível distinguir quem se sobrepõe ou quem vem em primeiro plano.

O curioso título, italiano para “tio e tia”, aproxima, explica o compositor, a cosmopolita São Paulo de “um CD que é um retrato do Rio”. Falso Leblon, Lapa, A Cor Amarela, Menina da Ria. O Caetano da zona sul carioca foge do clichê das odes ao Corcovado e Ipanema ao retratar a cidade maravilhosa de seus outros belos recantos, ainda que na velha fórmula da colagem de descrições. A própria capa reforça essa particularidade, mostrando - ao contrário das novelas de Manoel Carlos - um Leblon acinzentado em um dia chuvoso.

As faixas de maior propensão ao Indie Rock, como Sem Cais, Base de Guantánamo e Por Quem?, são claros exemplos de como a Banda Cê - Pedro Sá (guitarra), Ricardo Dias Gomes (baixo) e Marcelo Callado (bateria) – tem livre influência no novo pendor musical do artista. Esse vantajoso mutualismo entre Caetano e músicos jovens tem rendido elogios ao tiozão da turma além de ser um atrativo de primeira mão para públicos de variadas faixas etárias.

Assim como no disco anterior, Zii e Zie não terá sequer uma canção de destaque. Nenhuma faixa vai virar hit ou se tornar parte da memória coletiva brasileira como nos trabalhos setentistas do cantor baiano. É um álbum nivelado e sem grandes realces, uma preferência recente da crítica e entretanto uma lacuna em frente ao grande público.

Mas quem, afinal, é, ou que quer ser Caetano Veloso? Tropicalista? Cantor de MPB? Popstar? Ou, mesmo agora, Indie? Aquele homem de meia idade encarnaria aonde quisesse. Só o que Caetano não quer é morrer.

Igor Falconieri


Zii e Zie
Mercury, 2009

Faixas:
1. Perdeu
2. Sem Cais
3. Por Quem?
4. Lobão Tem Razão
5. A Cor Amarela
6. A Base de Guantánamo
7. Falso Leblon
8. Incompatibilidade de Gênios
9. Tarado Ni Você
10. Menina da Ria
11. Ingenuidade
12. Lapa
                                                                      13. Diferentemente

     
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A Manipuladora

Quinta-feira, Abril 23, 2009



O azul-acinzentado em frente ao qual posam celebridades, primatas, bichos de pelúcia e crianças chorando é a assinatura do trabalho de Jill Greenberg. Você prova-velmente reconhece sua familiaridade na capa de The Sweet Escape, segundo disco solo de Gwen Stefani. Aos 31 anos de idade – e expondo desde os 10 – a fotógrafa canadense também faz do impacto de sua opinião sua marca nas galerias.

É o caso de End Times, o trabalho mais audacioso de seu portfólio, apresentado em 2006. Nele, ao longo de 27 fotografias, aparecem, em cada uma, crianças de dois a três anos aos berros e nervos que, segundo a fotógrafa, procuram transmitir o desconten-tamento e o repúdio que despertaram a adminis-tração Bush e o fundamentalismo cristão nos Estados Unidos.

A autora teve de rebater acusações de agressão e sadismo ao usar crianças em estado de desespero como modelos e explicou que é mãe, e por isso jamais as maltrataria. Em quase todas as fotos, para conseguir que a criança chorasse, Greenberg as oferecia um doce e logo depois o tomava. Para a fotógrafa, fotos de crianças chorando capturam a mais crua emoção, honesta o suficiente para repassar o sentimento de rechaço em frente ao governo republicano.

O título da coleção faz referência à crença no apocalipse – assunto pertinente ao fundamentalismo -, o fim dos tempos, que, ironiza a fotógrafa, “torna inútil a proteção do planeta e de seus filhos”. Segundo Greenberg, “os fundamentalistas mais perigosos não estão conduzindo a guerra no Iraque, e sim atacando a evolução, bloqueando o avanço médico e ignorando os problemas ambientais”.

Em outubro de 2008, Greenberg reafirmou sua ousadia ao manipular as fotografias que fez de John McCain a contrato da editorial Atlantic e publicá-las em seu site. O que inicialmente parecia uma brincadeira foi confirmado como proposital pela fotógrafa: Greenberg declarou que teria utilizado luz especial para deixar os olhos do republicano vermelhos e efeitos de pós-produção que deixaram sua pele com uma textura ruim, deixando-o com aspecto malévolo e raivoso. O caso foi à justiça e a revista informou que não mais contratará a fotógrafa.

Outras foto-montagens chegaram à rede, entre elas, uma onde um macaco faz cocô na cabeça do então candidato à presidência e outra onde a boca de McCain foi sobreposta pelos lábios e dentes ensan-güentados de um animal predador.


São tantas polêmicas que Jill Greenberg escolheu por adotar o ambíguo epíteto de “a manipuladora”, uma referência à composição de cores estilizada que usa em seus trabalhos e à má – ou será boa? – fama que construiu após suas incursões na crítica política.


Igor Falconieri



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Eloquência Barroca

Quarta-feira, Abril 22, 2009



Texto escrito para o colégio, em 17 de Abril de 2009. O Sermão da Sexagésima é uma das obras incluídas no vestibular da UFMG em 2010.

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Na liturgia católica, Sexagésima é o segundo domingo do período que antecede a Quaresma, aproximadamente sessenta dias antes da Páscoa.

Próximo ao período em que os cristãos católicos comemoram a ressurreição de Cristo, o padre orador português, até então em missão jesuítica no Maranhão, retorna a Lisboa a fim de relatar ao rei os abusos sob os quais viviam os indígenas cativos na colônia. Em conflito com a Inquisição e mal-quisto pelos colonos brasileiros, a Antônio Vieira só restava a valorosa proteção de D. João IV, quem o havia nomeado pregador régio.

É sob essas circunstâncias que Vieira discorre sobre a pregação e a retórica de seu tempo em frente ao seleto rebanho da Capela Real, composto pela alta nobreza lisboeta do século XVII. Ao longo dos dez dias de discurso do Sermão da Sexagésima, editado para publicação vinte e cinco anos depois, o orador assinala sua hábil eloqüência ao impregnar elementos da oratória barroca ao estilo litúrgico jesuítico sem ocultar sua postura contra-reformista.

A riqueza até prolixa de metáforas, sagazes ironias e alusões bíblicas no sermão contrasta com o acompanhamento pragmático, próximo do ouvinte, com que ele é proferido. Vieira se esbanja de analogias alegóricas para fácil assimilação por parte dos fiéis – mesmo que, suponha-se, sua platéia fosse formada de cristãos bem instruídos - e seu eixo de sustentação é a conhecida parábola do semeador. Soma-se a isso a argumentação constante ao longo do sermão, na qual o orador indaga sobre a quem concernem as falhas na propagação da fé cristã.

Expondo relações diretas de causa e efeito, Vieira conclui-se culpando austeramente os pregadores que, segundo ele, se corrompem ao deturpar a mensagem cristã em favor do interesse e da vontade humana.

O padre firma um bom sermão como objetivo – expondo aqui sua aversão ao cultismo barroco, o qual chama de “difuso e negro” -, condizente às escrituras, compreensível para o ouvinte e, sobretudo, perturbador: Vieira sustenta o princípio de que a pregação deve servir a Deus e acusar aos homens de seus pecados, não tomando como objetivo agradá-los, tampouco enaltecê-los. Tal opinião do jesuíta provém do estado observado de submissão dos clérigos da corte e da colônia, limitados ou persuadidos pelo poder local.

Vieira chama, ainda, a atenção para a impostura de seus pregadores contemporâneos os antepondo aos oradores do passado, os quais, ele acredita, teriam sido mais íntegros em frente aos fiéis.

O proferir e o assunto do sermão são expoentes claros de sua época e da postura tomada pela Igreja Católica após o Concílio de Trento. Assertivo e impetuoso na colonização e contra a difusão do protestantismo, o clero europeu do século XVII exprimia no barroco o apelo na conduta moral e na tentativa de sustentação dos valores cristãos. Nesse sentido, o texto de Antônio Vieira é uma das expressões máximas da metalinguagem e da prosa sacro-barroca em língua portuguesa, visto sua distinta retórica e a longevidade de sua apreciação.



Referência Bibliográfica: VIEIRA, Antônio. Nossos Clássicos: Sermões. 6.ed. Rio de Janeiro: AGIR, 1972. 134p.

Igor Falconieri


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O Terceiro Sexo, Parte 1

Quarta-feira, Fevereiro 11, 2009


Foto: ericparker

A mulher que posa para a foto acima, tirada no complexo do templo de Tulashi Baag, no distrito de Pune, na Índia, é, na sociedade hindu, uma representante do terceiro sexo. Em meio a controversos valores que envolvem misticismo e segregação, as hijras são transexuais admitidas no sudeste asiático e em algumas culturas islâmicas como indivíduos nem masculinos, nem femininos.


Com sua existência milenar registrada, inclusive, no Kama Sutra, as hijras vivem em micro-comunidades cooperativistas chefiadas por um guru - em geral, uma hijra mais experiente - onde se refugiam da ridiculização, extrema pobreza e violência que as importunam, à margem da sociedade de países como Índia, Bangladesh e Paquistão. Forçados de maneira implacável por suas famílias a abandoná-las, além de privados de educação, trabalho assalariado e direitos civis, os transgêneros hindus vêm nenhum outro caminho a não ser viver em colônia enquanto se sustentam como prostitutas ou pedintes.

Ainda na adolescência, o garoto que se identifica como um transexual torna-se um chela (“estudante”) de seu guru, para quem passa a entregar todos seus bens e ganhos em troca de proteção.

As hijras constituem uma casta distinta na intricada e austera organização social hindu. Seguidoras de Bahuchara Mata - deusa relacionada à sexualidade que teria se vingado de um perturbador “retirando” sua masculinidade -, as hijras têm, no hinduísmo, o poder de abençoar ou de amaldiçoar. Por isso, são convidadas a lançar suas predições de boa sorte, fortuna e fertilidade em celebrações como casamentos e aniversários em troca de dinheiro. Religiosos mais ávidos jamais negam algumas rúpias ao um membro do terceiro sexo, temendo pragas e infortúnios. Algumas hijras também completam seu ganha-pão dançando ou cantando em festivais locais ou nos grandes centros; ainda assim, seu mais usual meio de sobrevivência é a prostituição.

Apesar de menos 20% dos transgêneros na Índia serem castrados, hijras eunucos desfrutam de maior status entre o grupo, além da preferência dos clientes. A castração é parte de um violento ritual à Bahuchara, o nirvan (“renascimento”), onde os órgãos masculinos são removidos anestesicamente apenas com uma faca. O governo indiano não permite a realização legal da cirurgia de transformação de sexo, sujeitando os transgêneros a métodos irregulares e insalubres.

Como devotas de Bahuchara, as hijras acreditam na não-violência e consideram o sacrifício de animais um pecado. Algumas delas conseguem se casar com outros homens e há casos, especialmente entre gurus, de hijras socialmente inseridas, que alcançam escolaridade e carreira profissional. Raras exceções capazes de refutar a intransigência de uma sociedade que, apesar de milenar, engatinha e se embaraça em um insignificante e, ao mesmo tempo, danoso empecilho das relações humanas: o convívio com a diferença. (Continua)


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The Third Sex, um dos episódios da série documental Taboo, exibida em 2002 no National Geographic Channel, retrata as distintas formas de comportamento sexual coexistentes ao lado de culturas seculares que as consideram “disfuncionais”. Dentre elas, as comunidades de hijras no sudeste asiático.

Igor Falconieri



Taboo, 1ª Temporada
Morris Abraham
The National Geographic Channel, 2002

Sinopse:
A série Tabu enfoca diversos costumes que são normais em certas sociedades e desprezados ou considerados ilegais em outras. Cruzando a fronteira entre as crenças mais tradicionais e os hábitos modernos, Tabu investiga a ampla gama de semelhanças e diferenças entre os seres humanos. Entre os assuntos abordados estão temas relacionados à culinária, sexo, cerimônias de iniciação, profissões e terapias médicas. (NatGeo.uol)

     
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Os 100 Anos (em branco) de Carmen

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009


Foto: Divulgação

“Tempo. Como passa depressa! E como é cruel!”
Carmen Miranda


Hoje, não fosse seu fim precoce graças à exaustão que lhe impôs o show business, a estrela internacional Carmen Miranda faria 100 anos. A “Pequena Notável” - batizada assim pelo radialista César Ladeira por seus tão miúdos, mas presenciáveis 1,53m – morrera em agosto de 1955 de um colapso cardíaco devido à pressão de sua carreira inquietante, potencializado, ainda, pela dependência de anfetaminas e ácido barbitúrico, prescrições médicas para que a cantora e atriz pudesse cumprir seus até três espetáculos diários.

Como parte das comemorações, teremos o de praxe: o Brasil oferecerá poucas atrações em remontar os vestígios da artista. A memória de Carmen no Brasil pode ser facilmente identificada em não mais que três projetos a aproximar de seu porte: A extensa biografia da cantora e atriz por Ruy Castro, veterano em personalidades brasileiras; o Museu Carmen Miranda, no Rio, inaugurado um anos após a sua morte – que, nesses últimos cinqüenta anos, sofre por desfalques e escassez de recursos -; e o documentário Bananas Is My Business, obra em vídeo quase tão vasta quanto a de Ruy Castro, de Helena Solberg – ainda assim, de produção britânica.

É fácil encontrar a razão para a efemeridade cultural de um país que há anos faz imortal seus jogadores de futebol enquanto desaproveita suas mentes e virtuoses. Ninguém mais oportuno do que Carmen para exemplificar esse descaso: Dentre os catorze filmes gravados pela atriz luso-brasileira nos Estados Unidos, entre os estúdios da Fox e MGM, todos tem suas cópias restauradas e disponíveis ao público em VHS e DVD.

No Brasil, dentre os nove filmes aqui gravados com a participação de Carmen, somente não se perdeu Alô, Alô Carnaval. Entretanto, sua cópia restaurada em 2001 não está disponível para reprodução pública. De Banana da Terra resta apenas a lendária interpretação de O Que É Que A Baiana Tem?, ao lado de Caymmi e o Bando da Lua.

Faltam lançamentos remasterizados nas lojas, especialmente quando se procura por qualquer compilação que tenha mais inteira abrangência da carreira musical de Carmen: Entre 1929 e 1940, 281 canções foram registradas no Brasil, em discos de 78 rotações da Victor, Odeon e Brunswick, além das 32 canções lançadas pela Decca nova-iorquina entre 1939 e 1950. As duas caixas auto-intituladas cobrindo, a primeira, com quatro CDs, os anos na Odeon, e a segunda, com três, os sucessos na Victor, estão fora de catálogo há quase dez anos.


“A coisa mais importante para um artista é ser digno de um bom desempenho. Nunca tive diretor para os meus shows. Faço tudo como sinto.”
Carmen Miranda


Mais do que a cantora e atriz brasileira mais conhecida no exterior, Carmen é um retrato icônico, um registro histórico e uma figura de onipresente influência. Embora tenha sido a personagem folclórica e estereotípica que tanto desagradava seus quase-compatriotas, não fora essa a verdadeira intenção de Carmen ao desembarcar nos Estados Unidos a contrato do empresário norte-americano Lee Schubert no fim da década de 30.

Seu sotaque desconcertado, ou, como diziam, seu “it”, despertava risos entre os gringos, que o vinham com o pasmo de quem mal sabia onde fica o Brasil. Mesmo que, mais tarde, tentasse se livrar de seu chavão, Carmen carimbou seu passaporte além-mar como uma comediante, uma burlesca performista. Um desacato para seus conterrâneos, que a receberiam, menos de um ano e meio depois, com vaias em seu show de volta ao país, deixando atônitos os ilustres convidados da então primeira-dama Dona Darcy Vargas. O “crime” da americanização – um clichê reiteradamente sustentado na história da cultura popular brasileira – aumentava a hostilidade no Brasil ao lado da já conhecida nacionalidade lusitana da baixinha.

De fato, 10 meses separaram Carmen de ter nascido no Rio de Janeiro: sua família se mudara para a então capital brasileira com a filha no colo, que, menina, já se enturmava entre as rodas de malandro.

Na década de 40, Carmen foi a segunda estrela mais bem paga em Hollywood, e, no ano de 1946, o contribuinte com o maior imposto de renda nos Estados Unidos. Três anos antes de sua morte, uma pesquisa da revista norte-americana Variety apontava Carmen Miranda como a mulher mais imitada no país. Mas entre aquele esdrúxulo chapéu de frutas e um salto de 20 centímetros, se espremiam uma vida amorosa e familiar conturbada, dois abortos – um espontâneo e outro forçado – e 46 anos ameaçados pelo estresse e pela dependência química.

Horas antes de sua morte, Carmen, com um semblante pálido e exausto, chegou a desmaiar durante um programa de televisão nos Estados Unidos. A brasileira de coração, pés e gingado fora encontrada morta em seu quarto, na mesma noite, após um ataque cardíaco. Seu sepultamento, no Brasil, como quis, foi seguido pelo coro de 500 mil pessoas a entoar Adeus Batucada:


“Adeus, adeus, meu pandeiro do samba
Tamborim de bamba, já é de madrugada
Vou-me embora chorando com meu coração sorrindo
E vou deixar todo mundo valorizando a batucada [...]”


Adeus Batucada, canção de Sinval Silva
interpretada por Carmen na Odeon em 1935

Igor Falconieri


Bananas Is My Business
Helena Solberg
Channel 4, 1995

Sinopse:
Vida e carreira de Carmen Miranda são evocadas num misto de documentário e ficção, inspirado na clássica história da ascensão e queda de uma estrela. Exportada para os EUA como a "Brazilian Bombshell", ela foi uma estrela da Broadway e de Hollywood nos anos 40. O filme investiga sua importância para toda uma geração de brasileiros e norte-americanos. (Estação Virtual)

     
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Carmen
Ruy Castro
Companhia das Letras, 2005

Sinopse:
Carmen, livro de Ruy Castro, é a maior biografia de um artista já publicada no Brasil. Ano a ano, o autor acompanha a vida da brasileira mais famosa do século XX - do nascimento da menina Maria do Carmo, numa aldeia em Portugal, à consagração brasileira e internacional de Carmen Miranda e sua morte em Beverly Hills vítima da carreira meteórica e dos muitos soníferos e estimulantes que massacraram seu organismo em pouco tempo. Enquanto entrelaça a intimidade e a vida pública da maior estrela do Brasil, Ruy Castro nos leva a um passeio pelo Rio dos anos 20 e 30, e por Nova York e Hollywood dos anos 40 e 50 - cenários em que é especialista - resgatando a história de uma época em que, para estrelas como Carmen, as noites não tinham fim.

     
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Merriweather Post Pavilion, 2009

Sábado, Fevereiro 07, 2009




Foto: Divulgação

Aquela ilustração hipnótica que acompanha o oitavo long play do Animal Collective já figurava entre as escolhas para o melhor lançamento de 2009 antes mesmo que o ano começasse. Um entusiástico hype em torno dos pseudônimos Avey Tare (David Portner), Panda Bear (Noah Lennox) e Geologist (Brian Weitz) tem intrigado ouvintes desprevenidos desde que o disco vazou pelas redes de torrent nos últimas dias de dezembro.

O álbum - cujo nome vem do palco de shows, em Maryland, onde os integrantes da banda assistiram a seus primeiros concertos de rock - é, à inicial impressão, um anárquico e primitivista emaranhado de sons eletrônicos, imitações da natureza e vocais inarmoniosos. Escondido sob densas camadas sintéticas, o som nada convencional de Merriweather Post Pavilion pode passar ofuscado em uma primeira audição.

Mas, nas próximas deglutições, o bom sabor desse caleidoscópio orgânico se apercebe junto à infinidade de reverberações, feedbacks, colagens, sobreposições e referências sonoras. Visto como uma experimentação irracional ou como um sofisticado rompimento de paradigmas da música pop, o álbum, de qualquer forma, compõe um quebra-cabeça eletrônico ao fundir melodias sibilantes com os desarranjos da psicodelia. Assim, tem sido chamado o mais pop dos trabalhos do quarteto (temporariamente, trio).

Com Merriweather Post Pavilion, o Animal Collective não faz parte de uma vanguarda ultra-inovadora ou divisora de águas na história da música pop. Não. Ainda devem ser apreciados como meros filhos de Pet Sounds. Mas, contemporâneas da era digital, suas reinvenções estruturais e sua ilimitada impulsividade na criação assinalam uma estética sonora já referencial dos fins da primeira década do século XXI.

Igor Falconieri


Merriweather Post Pavilion
Domino, 2009

Faixas:
1. In The Flowers
2. My Girls
3. Also Frightened
4. Summertime Clothes
5. Daily Routine
6. Bluish
7. Guys Eyes
8. Taste
9. Lion In A Coma
10. No More Runnin'
11. Brother Sport

     
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Hejira, 1976

Quinta-feira, Fevereiro 05, 2009





Como sugere sua gélida arte de capa – com fotografia tirada em um lago em Wisconsin, após uma nevoada - Hejira é a estrada direta para o mundo intimista da compositora canadense. Aos 32 anos, Joni Mitchell leva ao estúdio os ecos de suas viagens, suas impressões, suas fugas: O nome do álbum, proveniente do árabe هِجْرَة, descreve no mundo islâmico a jornada escapatória do profeta Maomé a Medina, em 622.

No mundo de Joni, Hejira é o resultado do isolamento em uma viagem de costa a costa nos Estados Unidos precedido do fim de um relacionamento e da agitada turnê de The Hissing Of Summer Lawns. Arrebatada por rodovias infinitas, paisagens névoas e cafés de pequenas cidades, Joni escreveu sete das nove canções do LP enquanto dirigia solitária de Maine a Los Angeles, Califórnia – cerca de cinco mil quilômetros. Dentre as outras duas canções, a inquieta Coyote fora escrita em Boston durante o concerto itinerante Rolling Thunder Revue, protagonizado por Bob Dylan; e Furry Sings The Blues surgira após o encontro da compositora com o guitarrista Furry Lewis, mestre do Delta Blues nas primeiras décadas do século XX.

Nos quase nove minutos de Song For Sharon, Joni interpreta o dilema entre a liberdade e o matrimônio enquanto descreve impressões da cidade de Nova York; e, em Amelia, permeada pelo refrão “it was just a false alarm”, a cantora expõe seu fascínio por Amelia Earhart – ícone feminino da aviação, desaparecida no Pacífico em Julho de 1937 - e disse ser um “diálogo de um piloto solitário a outro”.

Joni desejava um som introspectivo em arranjos moderados, que transpusessem no disco a atmosfera solitária e plangente das letras. A guitarra jazzística de Joni forma um casamento primordial com o baixo melodioso de Jaco Pastorious, em quatro faixas em overdub, e com a gaita de Neil Young, em Furry Sings The Blues.

Os acordes e temas aqui presentes, dissonantes de trabalhos como Blue e Court & Spark, não deixam dúvidas de que a tecelagem sonora de Joni Mitchell seja um brilhante processo de reinvenção da arte e do gênio que é sua autora.

Igor Falconieri


Hejira
Asylum, 1976

Lado A:
1. Coyote
2. Amelia
3. Furry Sings The Blues
4. A Strange Boy
5. Hejira


Lado B:
1. Song For Sharon
2. Black Crow
3. Blue Motel Room
4. Refuge Of The Roads

     
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De volta...

Domingo, Fevereiro 01, 2009


Foto: igorfalc

Todos merecem férias. Mas as de estudante nunca parecem suficientes. As minhas terminaram. Algo do que se pode rir é que a gente sempre passa os últimos meses de aula a planejar arrumação, dizendo que vamos aproveitar o tempo livre para colocar tudo em ordem, organizar os armários de cima e o HD do computador, estudar aquela matéria que ficou mal-resolvida na escola, voltar a correr, ler aqueles dois ou três livros que você queria a tanto tempo... não faz nada. E tudo fica para as próximas férias, já que no ano letivo é que fazer tudo isso se torna mesmo impossível.

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A partir da semana seguinte, a Discoteca Básica não será mais publicada às terças, apenas as resenhas de lançamentos recentes continuarão a ter postagem periódica, ainda aos sábados. Por indisponibilidade de... tempo, a freqüência de publicações também será mais esparsa. Fico feliz com a boa recepção e com as muitas visitas que o blog recebeu, logo nas primeiras semanas, mas tenho que reclamar por mais comentários nesse domínio: tenho recebido réplicas pelos textos através do last.fm e do RYM que são muito válidas, mas agradeceria se os comentários se mantivessem no Blog.
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A foto que encabeça esse post, além de outras, foram tiradas, na fazenda de um amigo na última semana. O set completo está hospedado no Flickr.


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Os 20 Melhores de 2008

Sábado, Janeiro 03, 2009




Foto: Click!

Dois mil e oito foi um ano de excelentes garimpagens nos mais distintos gêneros: Entre a eletrônica da dupla nova-iorquina MGMT e o jazz alatinado da baixista Esperanza Spalding, o retorno do Portishead e também dos membros do Los Hermanos aos estúdios, os recordes alcançados pelo Coldplay investidos com a produção monumental de Brian Eno, até os experimentos irrequietos do veterano Tom Zé ainda podem ser considerados novos achados.

Mas o que se nota é que a primeira década do século XXI termina assinalada pela influência do barulho: Shoegaze, Dream Pop, Noise Rock, Neo Psychedelia... Dissonâncias e distorções sobre atmosferas sonoras densas, gêneros estigmatizados como depressivos e de mal gosto nas décadas de 80 e 90, que agora figuram entre os preferidos na cena indie. Mirocastle, terceiro álbum do grupo norte-americano Deerhunter, é um bom exemplo de uma maior sofisticação sonora e conseqüen-temente agradabilidade em que o estilo noise vem se modelando.

Outros dois destaques de rasgada aceitação crítica e popular são Dear Science, do aclamado grupo norte-americano TV on the Radio, que ocupa o primeiro lugar em listas anuais de 6 importantes publicações e Fleet Foxes, primeiro álbum da banda folk de mesmo nome, eleito o álbum do ano pela Billboard.

O que em geral me afasta desse tipo de lista seletiva é o nível de pretensão que elas naturalmente demandam. Afinal, não deve caber a ninguém considerar o que merece ou que não merece atenção ao longo de um ano inteiro. Defino minhas escolhas como pessoais e, assim, as dispus em ordem de lançamento.



Oracular Spectacular
MGMT
Columbia


Jukebox
Cat Power
Matador


The Bedlam in Goliath
The Mars Volta
Universal


Made in the Dark
Hot Chip
Astralwerks


Seventh Tree
Goldfrapp
Mute




New Amerykah Part One (4th World War)
Erykah Badu
Motown


Rockferry
Duffy
A&M


Attack & Release
The Black Keys
Nonesuch


Third
Portishead
Island/Mercury


Hard Candy
Madonna
Warner Bros.
Leia sobre Madonna



Narrow Stairs
Death Cab for Cutie
Atlantic


Esperanza
Esperanza Spalding
Heads Up


Fleet Foxes
Fleet Foxes
Sub Pop


Viva la Vida or Death and All His Friends
Coldplay
Parlophone


Modern Guilt
Beck
DGC Records




Microcastle
Deerhunter
4AD


Only by the Night
Kings of Leon
RCA


Dear Science
TV on the Radio
DGC Records


Estudando a Bossa - Nordeste Plaza
Tom Zé
Irará


Little Joy
Little Joy
Rough Trade
Leia a resenha



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Original? Por quê?

Sexta-feira, Janeiro 02, 2009


Foto: ArtNow314

O Brasil apreendeu mais de 6,7 milhões de CDs piratas em 2008, segundo o Ministério da Justiça, um número desprezível se comparado à infinidade de cópias que continuam circulando nesse mercado que jamais se intimida com apreensões policiais. Afinal, o valor médio de 30 reais por uma cópia original oferecido pelas lojas de CDs nem de longe concorre com os preços encontrados nas bancas de camelô – tampouco, ainda, com a facilidade de preço zero encontrada nas redes P2P.

O assunto é controverso: Em meio à livre escolha que lhe proporciona o mercado, mesmo o mais insensato ouvinte ou espectador deve se perguntar: “Por que eu deveria comprar uma cópia original?” “Que benefícios essa me traria além do que é oferecido pela cópia pirata?” Quando o mais evidente motivo, o fato de que o respeito à propriedade intelectual é vital para a valorização e a manutenção da obra artística, não parece comover a grande maioria dos consumidores de cultura, é preciso pensar em novos atrativos.

Encartes com fotos, material bônus, caixas de luxo. Tentativas frustradas de convencer o público a pagar um preço que se tornou caro com o advento da pirataria e da disseminação gratuita de mídia na internet. Há de se concordar que ao menos a intrínseca da obra não tem qualquer alteração entre um lançamento em cópia original e um arquivo em MP3.

Há, ainda, quem defenda o fim das leis de proteção dos direitos de cópia e até mesmo organizações que apontem os benefícios da livre disseminação intelectual; como é o caso do Piratpartiet, partido político sueco com mais de 9 mil associados na luta contra o copyright.

Outro apontamento freqüente, mais específico no Brasil, é o valor dos impostos taxados sobre produtos de mídia, considerados bens supérfluos pela lei federal. Cerca de 45% a 47% é a fatia tributária embutida nos preços de CDs e DVDs de fabricação nacional, que se tornam inaccessíveis e nem por isso destina a maior parte de seu valor a seus autores. O governo do Uruguai aprovou no ano passado uma lei que isenta as taxas tributárias nos artigos de mídia, o que reduziu os preços e, conseqüentemente, a pirataria no país. No congresso brasileiro, uma proposta de emenda do deputado Otávio Leite (PSDB-RJ) poderá seguir o exemplo uruguaio.

O que não se pode negar é que os tempos mudaram. A internet já se afirmou como o mais promissor difusor de mídia e, por que não dizer, cultura, informação, arte... Bens antes declarados universais mas que não escaparam de adquirir valor comercial. Segundo projeto do professor de Direito Penal da PUC Minas Túlio Lima Vianna, A Ideologia da Propriedade Intelectual, o valor comercial vinculou-se historicamente à obra intelectual através do custo dos meios e serviços implicados à disseminação desses bens.

Com a internet o custo de divulgação se torna muito baixo ou se anula, restando ao valor da obra artística apenas o que concerne aos seus autores. Esse novo veículo de difusão intelectual aliado à isenção de taxas tributárias significaria a solução para o problema de artistas e consumidores. Entraria em pauta o valor integral da arte.

Igor Falconieri



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Vlado, por Maringoni

Quarta-feira, Dezembro 31, 2008



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Reencontrei esta página de uma edição antiga da revista Aventuras na História. O texto, do jornalista Gilberto Maringoni, integra a reportagem que lembra os 30 anos da morte do também jornalista Vladimir Herzog publicada em 2005.


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Stan Getz em Bossa

Terça-feira, Dezembro 30, 2008




Foto: Divulgação

À exceção de celebrações regionais e raros projetos culturais isolados, o ano do cinqüentenário da Bossa Nova deixou a desejar. No que diz respeito à memória da batida minimalista de João Gilberto que definiu as direções da música brasileira e a propagou mundialmente na década de 1960, apenas tiveram projeção considerável o frustrado dueto entre Caetano Veloso e Roberto Carlos, no Teatro Municipal do Rio, e as, mesmo previstas, ainda assim espantosas quatro aparições de João em shows pelo Brasil. Ações não menos importantes, a exemplo do tombamento do ritmo como patrimônio carioca, pela Prefeitura do Rio, e o lançamento do mais que oportuno Estudando a Bossa, de Tom Zé, onde o músico baiano toma de objeto experimental o gênero e sua formação, não receberam devida atenção da mídia, contribuindo para o desbote em que passou o aniversário.

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Partindo já de um ponto avançado na história da Bossa Nova, a Discoteca Básica mostra (ao menos no finzinho do ano, né?) uma série de cinco aclamados álbuns do gênero lançados entre 1962 e 1965 pelo saxofonista americano Stan Getz em parceria com diversos músicos ligados à Bossa que registram alguns de seus momentos de maior popularidade e refinamento musical.

Além da marca estilística que consagrou Getz entre os expoentes mais notáveis da Bossa Nova, a série ainda assinala uma feição estética onde todas as capas dos LPs são ilustradas com pinturas abstrato-expressionistas da artista plástica porto-riquenha Olga Albizu.


Jazz Samba
Stan Getz e Charlie Byrd
Verve, 1962


Já consolidada no Brasil, a Bossa Nova fora apresentada a Stan Getz e ao público norte-americano por iniciativa do guitarrista Charlie Byrd, que durante a primavera de 1961 conhecera a música de João Gilberto e Tom Jobim em uma viagem diplomática à América do Sul.

No ano seguinte, os planos de uma parceria com o saxofonista se consolidaram em Jazz Samba, álbum gravado em uma construção adjacente a uma igreja – devido à acústica agradável encontrada no local – cuja interpretação de Desafinado alcançaria o topo das paradas norte-americanas e renderia a Getz o Grammy por Melhor Performance de Jazz:    Tinha início a febre da Bossa Nova nos Estados Unidos.

  
Big Band Bossa Nova
Stan Getz
Verve, 1962


Menos conhecida entre os demais lançamentos da série, a seqüência escolhida por Getz, lançada ainda no mesmo ano, consiste em arranjos de Gary McFarland em Bossa Nova para o acompanhamento de uma Big Band.
  
Jazz Samba Encore!
Stan Getz, Luiz Bonfá e Antônio Carlos Jobim
Verve, 1963


Para retomar o sucesso de sua primeira experiência com a Bossa, Getz divide o estúdio, agora, com os brasileiros Antônio Carlos Jobim – como insistem, lá fora, em chamar o Tom -, Luiz Bonfá e sua esposa Maria Toledo, que impressiona por sua voz terna e gutural na interpretação de Insensatez.
  
Getz/Gilberto
Stan Getz, João Gilberto e Antônio Carlos Jobim
Verve, 1964


Eleito por muitos o melhor disco do gênero além do mais bem sucedido da carreira do saxofonista, Getz/Gilberto é o primeiro e único LP da série com todas as faixas vocais e onde todas as canções são standards brasileiros. A presença de João Gilberto e de sua então esposa Astrud, acompanhados por Tom, Milton Banana, e Sebastião Neto, registra o momento quintessencial da Bossa Nova na companhia do Jazz.

Com uma irreplicável recepção entre o público norte-americano, o álbum fora a última ocasião do jazz no topo das paradas de música popular antes da avassaladora difusão da beatlemania, e levou, no ano seguinte, os prêmios Grammy de Melhor Álbum do Ano, Melhor Álbum de Jazz e Melhores Arranjos, e de Gravação do Ano para o single The Girl From Ipanema, um hit internacional na interpretação de Astrud Gilberto para a canção de Tom e Vinícius.
  
Getz/Gilberto #2
Stan Getz e João Gilberto
Verve, 1965


Diferentemente do lançamento anterior, a seqüência da parceria entre Getz e Gilberto é um registro ao vivo de performances separadas, apresentadas pelos músicos no Carnegie Hall, em Nova York, em Outubro de 1964.
  
Igor Falconieri

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Yes, can we?

Domingo, Dezembro 28, 2008



O presidente eleito norte-americano Barack Obama vem reafirmando sua urgência no oportuno cumprimento de uma promessa de campanha: fechar o Campo de detenção da Baía de Guantánamo, em território de controle do Estados Unidos em Cuba por onde já estiveram 775 prisioneiros sem acusações formais.

Ativada em 2001 para a detenção de “combatentes inimigos” – em suma, aqueles apontados como terroristas - dos Estados Unidos, a prisão é constante alvo de ataques de organizações ligadas à manutenção dos direitos humanos e à anistia visto que, mesmo tendo Richard Myers, general chefe do Estado-Maior Conjunto das forças armadas norte-americanas durante o governo Bush, intitulado-a “instalação modelo”, as práticas e condições internas do cárcere são oficialmente desconhecidas. Os rumores iniciais de que Guantánamo infringiria os tratados da Convenção de Genebra foram seguidos por protestos em todo o mundo e por relatórios da ONU, OEA, União Européia e organizações não governamentais como a Anistia Internacional que oficializam o atual tratamento carcerário como abusivo.

Em Novembro de 2007, uma cópia do protocolo de operações padrão utilizadas no Campo Delta, uma das instalações da base de detenção, vazou através de uma publicação do site Wikileaks. O documento, legitimado com a assinatura do general-major Geoffrey D. Miller, revelou a prática de exceção de detentos na prisão, classificando alguns encarcerados como isentos das limitações de práticas impostas pelo Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Uma carta branca para a infração dos direitos humanos.

O documentário britânico O Caminho para Guantánamo, de Michael Winterbottom, vencedor do prêmio de Cinema Independente em 2007 e do Festival de Cinema Internacional de Berlim em 2006, dramatiza uma versão da história real de três ingleses de ascendência paquistanesa equivocadamente confundidos com terroristas e encarcerados em Guantánamo durante o início da guerra no Afeganistão (2001-presente).

Partindo dos relatos de Ruhal Ahmed, Shafiq Rasul e Asif Iqbal, o docudrama lança severas críticas à política do “bater primeiro, perguntar depois” e aos desastrosos enganos que marcaram o governo Bush. Cenas fortes de tortura física e psicológica, além de humilhação e interrogatórios forjados remontam na tela os dois anos de encarceramento à céu aberto do trio, que, após esse período, foram libertados sem nenhum tipo de reconhecimento pelo equívoco, indenização ou sequer esclarecimento por parte do governo dos Estados Unidos.

Em uma das cenas, Ruhal Ahmed é colocado ajoelhado, com os olhos vedados e as mãos atadas entre os pés, uma posição dolorosa capaz de causar falência muscular, durante horas em uma sala com música pesada e em volume lesivo. Em outro momento, Ruhal também presencia o espancamento brutal de um outro detento, que havia recusado as ordens dos oficiais. Foram ainda relatadas pelo trio práticas como a profanação da religião islâmica e ofensas verbais por parte dos soldados e situações onde os prisioneiros eram encapuzados, privados do sono, recebiam injeções forçadas de altas quantidades de drogas ou eram fotografados nus ou em posições humilhantes.

O Pentágono, mesmo já tendo reconhecido quatro suicídios na prisão, sempre negou qualquer acusação de infração dos direitos humanos, inclusive tortura, e alega haver muita informação enganosa. Afirma, também, que muitos presos são orientados por advogados a dizer que foram torturados.

Mas independe disso o fato de que Guantánamo já é um capítulo vergonhoso na história. O desafio compelido a Obama é realizar a transferência e o julgamento legal de todos os detentos sem que isso afrouxe o combate ao terrorismo. Será que os cidadãos dos EUA querem possíveis “combatentes inimigos” em solo norte-americano? Ainda assim cumprir essa promessa será uma demonstração oportuna - em meio à oferta de mudança que o novo governo representa para o mundo – da intenção em limpar o histórico de atrocidades mantido por uma nação à qual, em contraste, concerniu-se o destino de disseminar os benefícios da liberdade. Resta aguardar.

Igor Falconieri



The Road To Guantánamo
Michael Winterbottom
Channel 4, 2006

Sinopse:
Misto de documentário e dramatização de eventos reais, o filme narra a terrível história de quatro cidadãos britânicos de origem paquistanesa. A saga dos rapazes tem início quando eles partem, em 2001, para um casamento no Paquistão. Em uma mesquita local, o Imã os convence a partirem para o Afeganistão numa missão de ajuda. No dia em que chegam à cidade de Kandahar, bombas começam a cair no país. Três deles são capturados pelas tropas americanas e levados à prisão militar de Guantánamo, em Cuba, sem qualquer acusação formal. Ficam presos por dois anos e são libertados depois, sem explicação. Filme polêmico, ganhou o Urso de Prata de melhor direção no Festival de Berlim de 2006. (Cine Players)

     
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Little Joy, 2008

Sábado, Dezembro 27, 2008




Foto: Divulgação

O ano de 2008 pode ter sido o melhor da vida para os fanáticos órfãos do Los Hermanos: Desde que os barbudos anunciaram “dar um tempo”, o recesso de duração indeterminada significou a ânsia dos fãs da banda carioca, que encontraram o valor de sua espera nos solos recém-lançados Sou, de Marcelo Camelo, e Little Joy, álbum homônimo da banda formada no ano passado por Rodrigo Amarante, Fabrizio Moretti, baterista dos Strokes – que, de maneira oportuna, também “deram um tempo” em 2007 -, e Binki Shapiro, multi-instrumentista norte-americana e namorada de Moretti.

Enquanto Camelo aposta numa MPB arrastada e morfética, Amarante, que no último ano também flertou com o samba na Orquestra Imperial e compôs ao lado de Devendra Banhart, traz de suas férias como Hermano algo bem diferente, um álbum bem dito “ensolarado”: A batida rápida de estilos sessentistas como o Sunshine Pop e o Bubblegum e a singeleza das composições de Moretti e Amarante - que ainda ganham som radiofônico de baixa fidelidade para completar o clima retrô - recriam perfeitamente no imaginário do ouvinte a atmosfera de um desagitado dia na praia.

The Next Time Around abre a lista de canções com um ukulelê havaiano que remete aos antigos filmes americanos com propaganda turística, e Brand New Start segue com o estilo inocente das bandas de surf rock dos anos 60, como os Beach Boys. Em contraponto, apesar da boa intenção de estender o clima hippie, No One's Better Sake arruína sua melodia com o uso desconcertante de um órgão eletrônico, enquanto Shoulder To Shoulder é a canção mais próxima da morosidade vocal de costume dos Hermanos e marcada também no último lançamento dos Strokes.

Mais destaques ficam para How To Hang A Warhol, que, partindo da referência ao mais influente artista do século XX, narra as pretensões de um pequeno aspirante ao sucesso; e Evaporar, que encerra o álbum como a única canção totalmente em português.

É imprescindível a comparação, mesmo que desagradável, dos dois trabalhos coexistentes dos barbudos: Sou é um disco com enfoque poético e de melodias entorpecentes – com exceção da libertina marchinha Copacabana – que ganham impressão laboratorial na voz plangente de Camelo. Já Little Joy é a trilha para descer a serra pela manhã até à praia com os amigos ou para se ouvir nos comerciais indie de operadora telefônica que tanto têm preenchido a TV.

É só uma pena o piquenique ensolarado de Amarante não encontrar ambiente oportuno no atual verão brasileiro. Alguém recomenda algum disco para dias de chuva e enchentes?

Igor Falconieri


Little Joy
Rough Trade, 2008

Faixas:
1. The Next Time Around
2. Brand New Start
3. Play The Part
4. No One's Better Sake
5. Unattainable
6. Shoulder To Shoulder
7. With Strangers
8. Keep Me In Mind
9. How To Hang A Warhol
10. Don't Watch Me Dancing
11. Evaporar

     
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Carinhoso, 1937

Terça-feira, Dezembro 23, 2008




Foto: kidneri

"Meu coração..."

Poucos brasileiros, mesmo que os menos ilustrados, não saberão completar o verso acima. É certo que nenhuma canção esteja tão penetrada em nosso repertório popular quanto Carinhoso: Um sentimentalismo simples nas confissões de um eu devoto através da letra de João de Barro, casado à deleitosa melodia de um choro jazzístico de Pixinguinha, e as mais de 200 interpretações gravadas da canção - os nomes vão dos vocais remotos de Dalva de Oliveira aos sons vanguardistas de Hermeto Pascoal - renderam a Carinhoso uma perpetuidade unânime e vezes o título de perfeita canção brasileira.

A Bravo!, conceituada revista de cultura, elegeu-a, neste ano, a mais essencial das canções populares do Brasil e a descreveu como "letra original e música ousada". A música, concebida pelo flautista Alfredo da Rocha Viana Filho, o Pixinguinha, em 1917, só foi gravada 11 anos depois - em versão instrumental - pois o compositor por muito tempo se sentiu envergonhado de apresentar um choro de duas partes, quando o admissível era de três; e a tão notória letra de Braguinha, como era conhecido João de Barro, só surgiu em 1936, a pedido de uma atriz que a interpretaria no Teatro Municipal do Rio de Janeiro.

Nada disso tornou a canção famosa. Nada, senão a insistida - por parte dos autores - gravação de Orlando Silva, que, assim como outros cantores, também hesitava em relação a Carinhoso e não abriu mão de gravar a valsa Rosa, também de autoria de Pixinguinha e que despertava maior preferência de seus intérpretes. Contra todas as desesperanças, o disco com as duas canções lançado em maio de 1937 pela Victor não só fez jus à originalidade e ao talento do compositor e do letrista, como alavancou a carreira do cantor e obteve êxito inédito em rádio e vendas.

Mesmo que minhas preferências procurem pelos variados gêneros da música brasileira e que esse seja um país tão diversificado que o termo "eclético" nunca encontra totalidade denotativa; se houvesse de dar a uma canção o nome de Brasil, essa seria Carinhoso.

Igor Falconieri


Carinhoso/Rosa [*]
RCA Victor, 1937

Lado A:
Carinhoso
Lado B:
Rosa

[*] Disco 10" de 78 RPM







           
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Quem censura?, Parte 1

Segunda-feira, Dezembro 22, 2008



O ministro da justiça, Tarso Genro, encaminhou um polêmico projeto de lei há três semanas* ao congresso, que prevê punições àqueles que realizarem “interceptação de comunicação sem autorização judicial”. A polêmica envolve a manutenção da lei de preservação do anonimato da fonte e é apontada por muitos jornalistas como uma violação da liberdade de expressão.

Desde o escândalo Watergate na década de 1970, grampos telefônicos e, mais recentemente, cibernéticos, têm deposto desde pequenos funcionários públicos a altos estadistas. A insegurança de sua classe em relação às tais livres interceptações – algo que, em outro contexto, poderia se chamar “transparência política” – incomoda o ministro, que, implícito sobre o motivo da aplicação de seu projeto, deixa transparecer uma opinião na qual nem tudo deve ser entregue à limpidez no poder público.

Os míseros quase-vinte e cinco anos de indiferença estatal com a imprensa ainda não apagaram o medo que deixou a repressão militar. Mas, para muitos, jornalistas ou não, o X da questão não diz respeito à intervenção governamental, nem parece suscitar o ministro. A pior herança do último regime de partido único brasileiro é um “pão e circo” responsabilizado, agora, pela própria imprensa: centralizado, manipulador, ilusório e, até hoje – acredite –, ufanista.

O compositor Chico Buarque de Holanda nomeia o antigo “pão e circo” tupiniquim “TV e Futebol”. Nada mudou muito: A redemocratização apenas ratificou a hegemonia do primeiro nome entendido por Chico. O principal meio de comunicação no Brasil é capaz de derrotar candidatos à eleição para a presidência, promover escândalos políticos e alimentar o cheio de fé nacionalismo brasileiro. Não só é capaz, como o tem feito.

Uma explicação, mesmo que incompleta: Em 1993, o documentário britânico de Simon Hartog, “Muito Além do Cidadão Kane”, apontava que, à época, dois terços dos canais de televisão no Brasil eram controlados direta ou indiretamente por políticos. Essa apenas aparente independência da imprensa brasileira, em especial a televisiva, é o cunho fatal e silencioso da nova censura.

Mesmo não isenta de participação política, a promotora do “pão e circo” brasileiro hoje é o que podemos chamar de uma censura privada; ferramenta de facções preponderantes da comunicação calcada em intimidações político-financeiras, corrupção jornalística e sensacionalismo. Esses cartéis da imprensa acabam ainda se beneficiando indevidamente da própria lei de preservação do anonimato da fonte, a qual o ministro afirmou defender e garantiu que não será violada por seu projeto.

Se por um lado a certeza da irresponsabilidade e, em último caso, imparcialidade da fonte pode encorajá-la, devo lembrar de que uma fonte qualquer de informações sendo oculta – em outras palavras, não devendo satisfações à justiça – pode não existir. Em muitos casos, a fonte não passa da imaginação gananciosa do diretor de um jornal que vê nas sensacionais manchetes o sucesso de sua empresa. Resta a esse caso somente a aplicação da ética jornalística – ou deveria dizer cidadã?

A censura privada – a qual intrigantemente jamais foi questionada por parte do governo – não pode ser sentida como uma pedra no sapato na liberdade artística e de imprensa, mas é capaz de forjar fatos e idéias a fim de construir opiniões públicas favoráveis ao manipulador. E caso a fraude venha à tona, o que ganha a vítima, estampada em todas as cores na capa, como desculpas ou direito de réplica? Uma minúscula errata em preto-e-branco na seção de opinião do leitor.

Ao contrário do que se pensa, todas essas questões nem sempre colocam jornalistas e políticos em lados opostos: a censura privada pode interessar a ambos. Durante a ditadura militar, mostrar ou não a juventude “insegurável” do Brasil significava ser o número um em audiência e público, ou deixar de existir. Assim, os leitores e telespectadores brasileiros se acostumaram a ver o mais que fantástico em suas casas e nas bancas, desde a faraônica Transamazônica até o escandaloso mensalão. Esses espetáculos freqüentes, mas não periódicos, são lucro e Ibope certo a qualquer meio de comunicação. Quando não caem do céu, há de se criá-los.

Mesmo que pareça uma reguladora da imprensa atual, a punição para os grampos inviabiliza o acesso dos jornais às fontes de informação – sejam falsas ou verdadeiras – e pode ainda gerar acobertamento político para uma rede de comunicação específica a fim de forjar calúnias. Ou seja: A censura estatal, caso exista, não só não solucionará questão alguma como também se somará à privada.

Se a imprensa fiscaliza o estado, quem fiscaliza a imprensa? Como fiscalizar a imprensa, sem que isso se torne uma espécie de censura? Com tão pouco tempo de democracia, parece que ainda estamos longe de conhecer uma imprensa ética, esclarecedora e, finalmente, independente. Uma população enganada e mal-esclarecida vive em constante regime ditatorial, seja esse vindo de Brasília, ou vindo da Rede Globo. E esse delicado assunto não parece estar em discussão no projeto de Genro.

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*Texto escrito para o colégio, em 26 de Setembro de 2008,
sobre o tema "Política e Jornalismo".


Igor Falconieri

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Mallu Magalhães, 2008

Sábado, Dezembro 20, 2008




Foto: Divulgação

Há quase um ano e meio, a garota paulistana Mallu Magalhães despontou com quatro canções de própria autoria no site de relacionamentos MySpace, atraindo uma trupe de fãs de música independente que só crescia. Em pouco tempo, estaria freqüentando programas de TV, teria seus singles tocando nas rádios e seria aclamada por parte da crítica especializada, a revelação da música em 2008.

Foi por aí, que a síndrome do underground atingiu de prontidão os que reprovaram o sucesso da cantora/compositora no mainstream. Não sendo essa uma história inédita, o restante é premeditável. Tudo parece vir da insistência da jovem artista em manter - segundo muitos, de maneira forjada - a mesma imagem de criança meiga com a qual se consolidou em suas primeiras apresentações.

É de razão. Ninguém suporta assistir a bebê-gênio na TV - já bastam Maísa e aquele parente da Xuxa. Sobrinho, será? -. Dessa forma, Mallu, em uma tentativa de manter seu sucesso na fórmula de sempre apostar mais e mais no cavalo preferido, ofuscou seu talento ao ficar conhecida como a garotinha afável, aérea e ingênua e, mesmo que ainda arraste um bom número de fãs, colocou em risco seu prestígio ao arrancar infinitas críticas por passar a impressão repulsiva de uma adolescente retardatária.

Após um ano de aparições em programas de TV, eventos e comerciais de operadora telefônica, divulgações de clipes e making offs de gravações e uma série de lançamentos de singles independentes na internet; ou seja, após ver o público inteiramente saturado de suas canções e de sua meiguice duvidosa, Mallu Magalhães está lançando seu primeiro álbum com gosto, cor e cheiro de quadragésimo.

Não fosse a surpresa da excelente produção e arranjos, o álbum não teria nada de novo: a mesmice se faz presente nas já conhecidas desafinações da voz aguda da cantora, nos refrões “colantes” de suas canções e naquela inconfundível impressão de se estar ouvindo uma criança.

Sim. Apesar do jeitinho enojador, Mallu é talentosa como instrumentista e uma ótima compositora. O álbum apresenta letras consistentes e tem seus destaques, como You Know You've Got e a nova roupagem, suavizada, de J1. No entanto, na maioria das outras faixas, aquela que foi o hype da música brasileira em 2008 erra no ponto ao apresentar um folk rock dançante demais, que, junto a seu sotaque e sua voz infantes, imprime um infeliz tom jocoso a um gênero tão respeitado.

Igor Falconieri


Mallu Magalhães
Microservice, 2008

Faixas:
1. You Know You've Got
2. Don't You Look Back
3. Tchubaruba
4. O Preço Da Flor
5. Town Of Rock 'N' Roll
6. Hey Day Will Come
7. Angelina, Angelina
8. J1
9. Get To Denmark
10. Vanguart
11. Dry Freezing Tongue
12. Swalk
13. Noil
14. It Takes Two To Tango

     
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O que é que a Madonna tem?

Quinta-feira, Dezembro 18, 2008



Certamente não é “torço de seda, pano da costa e balangandãs”. Sendo assim, então, o que faz com que a popstar norte-americana ultrapasse a tão difundida aversão à sua terra de origem e seja motivo de tamanha admiração e frisson entre o povo brasileiro?

Desde que a cantora chegou ao Brasil, os noticiários estão inundados com fatos - desde o acompanhamento das apresentações nos estádios do Maracanã e do Morumbi aos mais dispensáveis (como este) - sobre a diva. Os shows são mega-produções raras em território nacional: Um enorme cubo no centro do palco se abre lançando doces virtuais a apresentando a popstar, que, ao longo do show, contracena virtualmente com outros artistas e consigo mesma em outras fases camaleoísticas da carreira; passeia de Rolls Royce por uma passarela que vai até o público; desaparece, ora por elevadores, ora por uma estrutura cilíndrica que a “engole” em pleno palco; luta boxe e pula corda; em um figurino que vai do art déco ao estilo das raves, com lasers e telões mostrando imagens gigantes da cantora.

Mas creio que não esteja em todo esse aparato magnífico o pó encantador que seduz os fãs da popstar há 26 anos. Voltando lá, em abril de 1982, a garçonete pobre do Dunkin’ Donuts - Madonna havia deixado a Universidade de Michigan e sua família problemática, com apenas 35 dólares no bolso, para se juntar a uma trupe de dança disco em Nova York - gravava seu primeiro single, para a Sire, subsidiária da Warner, após ser descoberta pelo DJ Mark Kamins.

Iam-se os singles, vinham os álbuns, a nova cantora passou a chamar a atenção e influ- enciar garotas e homossexuais a partir do começo da década de 80, com uma expres- são provocativa, usando um cabelo curto e despenteado com laços e fitas coloridas, saias com meias de rede, muitas pulseiras e uma marca registrada nesse período: a cruz.

Jóias remetentes a ícones cristãos em con- traste com uma garota de feições promís- cuas foram só o começo das controvérsias religiosas e sexuais de Madonna, que cujo nome, inclusive, é o mesmo pelo qual, em muitas culturas ocidentais, é popularmente chamada a mãe de Jesus - “Nossa Dama”, ou “Nossa Senhora” em italiano; do latim domina: senhora -. Há quem explique que a crítica da cantora através dos símbolos católicos reflitam um desejo, por desilusão ou rebeldia, de se opor à religiosidade fervorosa da família de origem italiana.

Do vestido de noiva e a cinta com a inscrição Boy Toy em sua antológica apresentação de Like A Virgin no primeiro MTV Video Music Awards, em 1984; passando pela publicação de SEX, livro que trazia, em 1992, fotografias provocativas da cantora em insinuações de sexo softcore - se você não sabe a diferença entre softcore e hardcore, pergunte a um garoto de 16 anos... - hétero e homossexual; até a sua crucificação com direito à coroa de espinhos, na turnê Confessions, em 2006; Madonna construiu sua carreira artística como um ícone anti-conformista ao opor-se escancaradamente aos tabus antinaturais que mantêm o moralismo, o preconceito, o machismo e a homofobia, e ao firmar sua bandeira da liberdade sexual.

Sua figura desperta uma avassaladora admiração - seja pelos controversos temas sociais de que trata ou por seu físico impecável aos 50 anos - e seu estilo suscita a liberação dos comportamentos mais instintivos, sem limites ou preconceitos. Proposta tentadora para que nos juntemos, devotos, aos seus diversificados e alegres fãs; dentre eles, os 70 mil que a verão hoje à noite no Morumbi.

Igor Falconieri


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Os Mutantes, 1968

Terça-feira, Dezembro 16, 2008





Não há dúvidas de que esses três garotos paulistanos tenham sido a melhor e mais genial banda já existente no Brasil: Inicialmente apresentando um repertório que ia de Mozart a Jimi Hendrix, o trio, de imediato, impressionou Caetano e Gil, que viam no grupo o ingrediente que faltava para o estouro de sua pretensiosa revolução antropofágica. Com a entrada dos Mutantes na turma, o tropicalismo passava a ser um misto de loucura e irreverência que espantaria a classe média brasileira e seria o traço assinalante da carreira da banda.

Apesar de lançado por um selo pequeno no Brasil, a Polydor, é nesse primeiro LP onde mais surpreendem o virtuosismo e a criatividade da nova banda. O casamento entre a influência psicodélica, em voga entre os mais libertários da arte, e as marcas regionalistas trazidas por Gil, a poesia inquieta de Caetano, o talento de Arnaldo e Sérgio na guitarra e baixo, a voz doce (ouça O Relógio) e as peraltices da menina Rita Lee, os arranjos inconvencionais de Rogério Duprat, e até o violão suingado de Jorge Ben em A Minha Menina; tudo é um perfeito conjunto que faz do álbum Os Mutantes uma das obras mais vanguardistas do Brasil - na lista da Mojo, esse ficou acima de Sgt. Pepper's entre os mais experimentais da história.

Esses experimentalismos presentes no disco eram, até então, inéditos no Brasil, o que certamente confundiu e gerou repúdio ao até hoje tradicionalista público musical brasileiro.

São o caso de Panis Et Circenses, canção antológica que contestava os valores tradicionais e o comodismo, ilustrada de efeitos como o de talheres batendo e a vinheta do rádio-jornal Repórter Esso; Baby, com seus efeitos de distorção da guitarra e voz, além do delicioso "sorvete" (slup!); e Ave Gengis Khan, uma das poucas escritas pelos Mutantes, traz risadas e fala distorcida de trás para frente.

Sobre essas e outras loucuras e bizarrices, é que fizeram e fazem-se todos os mutantes.

Igor Falconieri


Os Mutantes
Polydor, 1968

Lado A:
1. Panis Et Circenses
2. A Minha Menina
3. O Relógio
4. Adeus, Maria Fulô
5. Baby
6. Senhor F


Lado B:
1. Bat Macumba
2. Le Premier Bonheur Du Jour
3. Trem Fantasma
4. Tempo No Tempo
5. Ave Gengis Khan

     
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42: O número da despedida

Segunda-feira, Dezembro 15, 2008


Foto: AFP

Eram incontáveis os que, em todo o mundo, explodiam contentamento ao ouvir a notícia de que ninguém menos que o presidente norte-americano – mas não por muito tempo – George Bush levara dois arremessos de sapato; falhos, mas suficientemente purgantes a qualquer um que se deleitou com a cena.

O nome do benfeitor é Muntazer al-Zaidi, calça 42 e já virou herói através do globo e recebeu até uma premiação de uma organização filantrópica libanesa. Não posso me omitir de confessar minha também descompassada catarse ao ver o arremesso, a cena esportiva tão satisfatória: Ah, se tivesse acertado..., e concluí, o mundo estaria me dando mais alegrias.

Mas o mais apreciável é que, finalmente, logo se despedirá de nós o texano que marcou sua presença como símbolo da arrogância, altivez, e presunção imperialistas, não que sejam essas qualidades aplicadas, de uma forma geral, aos Estados Unidos; foram as qualidades do governo Bush, em meio aos famigerados equívocos que, agora, passam a ser indicados como propositais.

Com o fim da era Bush, é possível também enxergar o fim das políticas cegas, da irresponsabilidade ambiental, das caretas e das constantes gafes, dos frenéticos surtos de acusações de armas químicas e ameaças terroristas, da extrema impopularidade norte-americana no restante do mundo. No dia 1º de Janeiro de 2009, haverá pouco com o que se preocupar a respeito da posse de Barack Obama: Será o tão aguardado e feliz dia da desposse de Bush.

Ao ver a despedida do presidente, haverá, entre vaias e sapatadas – desacato é o mais novo símbolo da desobediência civil –, os que apostarão que o mundo estará mesmo a nos dar mais alegrias.

Igor Falconieri



Aproveitando: Parabéns presidente Bush (pelo sapato e) pelos 29% de aprovação popular atingidos neste fim de ano. Feliz Natal!


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